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Arlanza Crespo - Quem é Quem

Vivendo e Aprendendo

carnavalEste “Quem é quem” é um relato simples e verdadeiro de uma mulher comum que trabalhou a vida inteira e hoje, dever cumprido, curte a vida com merecimento. É bom conversar com gente assim, descomplicada. É aí que a gente vê como a vida é simples para quem sabe vivê-la.

Luzia das Graças Gama Clemente tem 64 anos e mora na Vila Parque há 40. Quando chegou tinha quinhentos moradores, hoje são mais de cinco mil. Veio de Leopoldina para o Rio de Janeiro com 17 anos. É diarista, tem 3 filhos e 5 netos.
Antes de vir para o Rio, morava numa fazenda, num tipo de trabalho escravo. Quando fez 16 anos, o dono mandou dar uma surra nos seus irmãos, e um deles desmaiou. Nesse dia, ela enfrentou o patrão e foi embora. Veio para o Rio ser doméstica. Casou com 21 anos e nos primeiros meses foi muito feliz. O marido trabalhava numa gráfica, o dinheiro não dava para cobrir as despesas da casa, mas ela trabalhava também, sempre deu duro. Luzia tinha muita vontade de estudar, mas o marido, apesar de chamá-la de burra e analfabeta, não deixava. Luzia só começou a estudar aos 40 anos, e fez do CA ao 2º grau no Colégio Antonio Maria Teixeira, no Leblon.

Separou-se há mais de 20 anos, e atualmente mora sozinha. “É bom ser dona da própria vida”, comenta feliz. É o prêmio que recebeu, depois de ter trabalhado tanto! Foi manicure, fazia faxina e tinha que levar os filhos, pois nunca conseguiu creche. Depois teve que deixá-los sozinhos em casa, e pedir para uma vizinha paralítica dar uma olhada. Luzia dava o almoço, “é que eles só se machucavam quando eu chegava!”, me conta rindo. Quando cresceram, foram para o colégio. Luzia levava e buscava, nunca confiou em ninguém. Um dia a patroa ensinou Luzia a bordar, e ela trabalhou seis anos como bordadeira. Todo o dinheiro que ganhava era para fazer melhorias na sua casa.

Vivendo e quemaprendendo poderia ser o título da vida de Luzia, que até nas filas que enfrentava no dia a dia tirou ensinamentos. Foi assim na fila do médico, onde ela ouviu falar pela primeira vez de um tal de INPS. Se informou, tirou o título de eleitor, o CPF e por fim a Carteira de Trabalho, trabalho aliás que nunca lhe faltou.

Hoje ela só trabalha duas vezes por semana, o resto do tempo ela se distrai. Já fez quatro maratonas: a do Vidigal, a das Mulheres, a da Rocinha e a do Alemão, onde correu até de tiro. Isso foi no mês passado, um pouco antes do momento da largada da corrida teve tiroteio, e ela ficou uma hora escondida. Das 2.300 pessoas inscritas só correram 1.300, as outras 1.000 desistiram.

Muita coisa melhorou na sua vida: adora navegar na internet e gravar música no seu pen-drive. Está sempre por dentro dos assuntos, faz vários cursos, adora dançar e ainda desfila na Rocinha, no Carnaval. Dever cumprido de uma verdadeira cidadã!

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Vivendo e aprendendo
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