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Lilibeth Cardozo

Sustos e delícias de ser avó

Gente, virei avó! E é tudo mentira que já se sai da maternidade “melada de tanto doce”. Deixar aquela menina, sua filha, com o filhinho dela, seu neto, no hospital dá a maior confusão na cabeça. É “depressão pós-avó”?!

Quando a sua menina vira mãe, nasce um filho da filha, é pior que aquelas emoções de ter parido duas vezes, amamentar, não dormir, não ter tempo nem de sentir a maternidade: a gente vai pra casa sem criança. Dá tempo de pensar, de sentir, de chorar, de dormir… Dá tempo de ficar relendo o nosso próprio livro de história, lembrando nossa avó, nossa mãe (avó também teve mãe e avó, sabiam?), duas vezes grávida, dois partos e no tempo em que a gente era a mulher que amamentava. Tempo de pensar no que é ser mulher, profissional, ter casa, carreira, namoros, casamento, separação, outros namoros, novas alianças, solidões, dívidas, decepções, festas, alegrias, fins de festas, reinícios… E, com tudo isso, assim, antes de ficar velhinha, se vira avó! Antigamente avó só aparecia nesse papel no último ato do espetáculo. Agora, no meio do espetáculo, sem aquele figurino de xale, óculos e cabeça branca, estamos nós, no papel de avó. Não tem cadeira de balanço, bordado no colo, conversas na varanda e cozinheira oferecendo um chazinho. Tem é trabalho, contas pra pagar, o mundo de cabeça pra baixo, internet, corrupção, manifestações públicas, gente que só se fala virtualmente…

Nossa filha, aquela menininha, fica feito bicho: agarrada ao filhote e rosnando pra protegê-lo. Daí, dizer que não mexe com tudo na nossa existência e é só alegria, sei não, acho pouco! Olhamos no espelho e vemos rugas e manchas da velhice. Até aí, evidência da idade. Ninguém fica jovem a vida inteira. Não existe mesmo avó garotinha! Mas aquela criança nos seus braços parece recomeçar assim, de repente, tudo que já foi vivido, com menos tempo pra viver, muito menos tempo… Com quase 60 anos, sem ter o trabalho marcando seus horários e mesmo assim não ter tempo de nada, se arranja muitos compromissos e enche a vida. Ter o primeiro neto não faz só “cair a ficha” de se estar ficando velha, cai um cassino inteiro de fichinhas: menopausa, rugas, manchas, cansaço. Depois que nasce o neto e passa o susto, alivia a depressão pós-avó, vem um ‘pacote” pra nossa mão: um netinho e a mãe dele; a filha de volta. Volta pedindo socorro (mas já sabe tudo!). Pronta para o ataque, geme na dor, mas afia as garras (igualzinho você afiou para protegê-la). O nosso netinho, crescendo saudável, passa a ser a pessoa mais importante da nossa vida, até porque sua existência nos devolve a filha, que há muitos anos nos tinha empurrado fora de sua vida.

avoCom o nascimento do seu próprio filho, a filha se dá conta de que você pode ser mãe dela, para que ela possa ser mãe do seu bebezinho com mais dedicação. Assim, ficamos mais perto uma da outra. Eu, agora avó, tranquilamente, e não abrindo mão de minha liberdade ( minha maior aquisição na vida), tenho curtido muito ter minha filha de volta. Uma experiência muito forte, intensa, marcante em nossas biografias: minha e dela. Ser avó não é esse “melado” todo que dizem, não! É um choque, um susto que faz umas rugas novas, mas também estica a pele. É uma paixão que também nos rouba no primeiro momento, depois vai crescendo, crescendo…. e vira amor! Acho que neto é que é fruto. Filho é raiz!

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Sustos e delícias de ser avó, 5.0 out of 5 based on 2 ratings

3 Comentários para “Sustos e delícias de ser avó”

  1. Denise Haerdy disse:

    Ter o primeiro neto, não faz só “cair a ficha” …
    Cai um cassino inteiro de fichinhas!!!
    ADOREI !!! Muito bom …

  2. gilda disse:

    adorei seu texto

    susto e delícia de ser avó.Tomei a liberdade de repassa-lo para as amigas que também são vovó de primeira.

    acho que neto é que é fruto,filho é raiz.
    essa definição é maravilhosa.
    beijos

  3. eunice sarmet disse:

    amei e já compartilhei . bjus

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