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Gisela Gold

A Minha

Amelinha nunca gostou de relógio. Sempre preferiu anéis e pulseiras da gaveta da mãe. Quando ia dar bronca na menina, no mesmo minuto ela gritava: “paieeeeeeeeeeeeeee!” O sujeito ouvia o grito de sua princesinha e em cinco minutos lá estava a bicicleta, o sorvete de chocolate, o jogo de bonecas, a viagem para Disney.

Amelinha nunca olhou para o relógio, afinal seus desejos eram realizados num piscar de olhos. Até o dia em que ouviu seu primeiro “não”.
Era seu primeiro dia de trabalho e chegou atrasada. Nunca soube o que era ser atrasada; todo mundo reclamava, mas nada relogioque uma gracinha de Amelinha não comprasse um sorriso no minuto seguinte.

Estava meia hora atrasada e não entendia como alguém podia não rir de sua gracinha. O chefe não perdoou, e Amélia, foi assim que a chamou, não conseguiu a vaga na livraria dos seus sonhos.

A vaga foi para Mário, que tinha a idade de Amélia e também já quis bicicleta, sorvete de chocolate, bonecos, viagem para Disney. Ao invés disso, seu pai lhe deu um relógio velho e disse: “Menino, seu pai não tem dinheiro para essas coisas da televisão, mas tome isso aqui. Era de seu avô. Com ele nunca perdi as chances que o mundo me deu. É seu”.

Mário recordava o feito, quando o dono da livraria perguntou-lhe as horas. “É a minha hora, Seu Décio, é a minha hora”. Beijou o vidro onde os ponteiros batiam seis horas e seguiu viagem.

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Boa de ouvido
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