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A palavra e o silêncio como matéria prima

foto_luciaA psicanalista e escritora Maria Lúcia Martins trabalhando na Bahia, Rio de Janeiro, Acre e Angola, entre outros lugares, em seu “percurso” passou pela educação matemática, psicopedagogia, arte terapia e filosofia. Desde 1985 tem publicado diversos livros de poesia e ficção.  Radicada no Rio, seus ofícios atuais são a psicanálise clínica e as oficinas de literatura.

livro_tarefaFolha Carioca – O que há de comum entre a literatura e psicanálise?
Maria Lucia Martins – Há grandes obras literárias que emprestaram da psicanálise a lógica singular do inconsciente, ao desenvolver a linguagem de sua trama, Por exemplo, a obra de James Joyce. No Brasil, a leitura de Graciliano Ramos nos transporta à psicanálise. De Grande Sertão: Veredas (Guimarães Rosa), colhi ditos com os quais ilustrei a travessia psicanalítica de uma analisanda. Psicanálise e poesia (literatura, arte), de ambas, a palavra e o silêncio são matéria prima; com elas, o homem tenta ocupar o seu  vazio, dele expulsando a ansiedade, a angústia, a dor. Assim, enquanto o psicanalista empresta os seus ouvidos ao paciente para que ele mais “se” escute a partir desse vazio, o sujeito da escrita, tenta preenchê-lo… É provável que, essa solidão solidária à voz do desejo inconsciente, também alcance à poesia que passa. Lembrando que, da poesia ao poema, há um delicado trabalho literário.

FC – Em algum momento de sua escrita você se descobre falando pela voz do inconsciente?
MLM – Numa aproximação, sim. Muito antes de me autorizar psicanalista, escrevi o poema “Notícia”. Anos depois, percebi que por ali rondara o conceito relacional de Freud, pulsão de vida x pulsão de morte… Vejamos a primeira estrofe:

Hoje vomitei um lindo pato, / pequenino, amarelíssimo. / Depois vomitei outro, outro, / outro, uma ninhada. Seguimos / todos a verde via principal, / arborizada / em busca do caudal metrô, / o velocíssimo. / Meus tenrinhos patos improvisaram / um nado lindo! “desliza-trilhos”, / desejo aquático – antiquada /
imanência trágica –  eu lhes aviso. / Não deu outra./ (…)

FC – Alguma obra sua, de ficção, nasceu de uma vivencia de trabalho?
MLM – Acabo de escrever um livro em que a personagem é uma menina que tem dúvidas sobre coisas que não tem fim. Ela sente, experimenta o infinito (sob humor e sonho) em situações concretas, mas  não chega ao conceito: a palavra infinito não é mesmo pronunciada.

livro_morteevidaO livro Caprichos do arco-iris, sobretudo na terceira parte, “A menina que  enterrava a boneca”, resume falas de mulheres que, em criança, enterraram — e desenterravam — suas bonecas. Mas, uma delas jamais conseguiu desenterrar a sua … Eis a personagem, Júlia.

FC – Nos parece que sua escrita dá uma enorme importância à infância, como, por exemplo, em seu poema Bandolim (Box), do livro Morte e vida Bandolim. Por que?
MLM – A linguagem que nos vai tornando um ser de fala, sexualizado e pensante, se confunde com a infância. Fonte de afetividade e fantasias, a infância há de nos falar por toda a vida. Ela é a nossa poesia, mesmo que nunca venhamos a escrever um só verso.

FC – Como a mulher, a psicanalista e a escritora convivem? Em qual delas se define, de fato, uma vocação?
MLM – Quando existe desejo, o tempo surge… Para mim, o tempo e a vida caminham juntos: com a ventura de ignorarmos quando vão parar para sempre. Por isso não devíamos fazer barulho… é preciso escutar seus avisos indeléveis. Á tal percepção de silêncio eu chamo de alma.

Logo ao café da manhã, ouço música suave, e leio um poema. Acho isso bom, para qualquer pessoa, sobretudo, se, psicanalista… Sim, eu escrevo, estudo, cozinho, vou ao cinema, pinto (menos do que gostaria), atendo, e faço oficina, como Sollei – Sociedade de Leitores Livres e Escritores Idem – em Salvado, já há seis anos. Em fase de organização, um Sollei-Rio, breve.

Vocação? A principal é viver. E que o dia traga a noite (de  sonhos…), e, dela eu desperte sob a alegria de mais um dia.

luciarma2010@gmail.com

Sempre toquei bandolim
Alisei seu longo dorso,
macio, lavei o seu pêlo.
penteei a sua crina
e lhe falava uns segredos…
As orelhas abanavam.

E havia uma música
de longe reconhecida.
Eram as patas no capim
do cavalo bandolim.

Meu cavalo bandolim
era vento nas estradas

Meu cavalo bandolim
era um pássaro que eu montava
(…)

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Um Comentário para “A palavra e o silêncio como matéria prima”

  1. Regina Corrêa disse:

    Ótimo Maria Lúcia. Parabéns.

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