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Ana Flores

Primeiras noções

– Primeiro se posicione atrás do fuzil, de maneira confortável mas firme. Na hora do sufoco pode não dar tempo de escolher a melhor posição, mas pelo menos você tem que estar bem apoiada, em pé ou deitada, certo?

– Certo.

flores_awp_kid_girl– Bom, uma das mãos vai sustentar o cano, que é muito pesado e tende a baixar.

– Tá bom.

– Mas não ponha a mão no cano, ela vai se queimar quando passar a munição.

– Então onde eu seguro?

– Mais pra trás, no guarda-mão, justamente por isso tem esse nome.

– Ah, tá.

– Agora encoste a soleira da coronha no ombro, e descanse a maçã do rosto na coronha, do jeito que eu estou fazendo.

– Assim?

– Isso mesmo. A sua mão desse mesmo lado vai segurar o punho do fuzil e o dedo indicador vai descansar na tecla do gatilho, pronta pra ser acionada.

– É a mesma coisa que apertar o gatilho?

– É, mas deixa isso pros cowboys. No nosso ofício nós dizemos acionar a tecla do gatilho. Bem devagar e continuamente, pra não perder o alvo comum movimento brusco. Entendeu?

– Acho que sim.

– Antes de subirmos aqui pro terraço você disse que estava com um pouco de medo, lembra?

– Lembro.

– E agora?

– Só um pouquinho, tá menos.

– Mais tarde, quando você sentir o cheiro da pólvora depois do seu primeiro tiro, vai ver muita coisa mudar.

– Como assim?

– Na hora você vai entender o que estou falando.

– Ah, é?

– Pode apostar. Bom, continuando. Afaste a tampinha da luneta e comece a procurar o alvo.

– Por que a luneta tem uma tampinha?

– Porque dependendo do local onde você se posicionar, o vidro da luneta vai dar reflexo e vão te localizar.

– Ah, entendi, isso não é bom… E quem a gente vai acertar?

– Ninguém. Hoje só estou te passando as dicas de posicionamento pra você ir se acostumando com o peso do fuzil e com a maneira de segurar sua arma.

– Só isso?

– Por enquanto, é.

– Mas então quando eu vou começar de verdade?

– Nessa profissão é preciso ter paciência e autocontrole, filha. Começar de verdade, só quando você fizer 11 anos.

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Um Comentário para “Primeiras noções”

  1. Alexandre Brandão disse:

    Estamos assim, Ana. Assim mesmo. E eu ando com medo do futuro (modo de dizer, tô com medo de agora mesmo).

    Belo e triste texto.

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