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Lilibeth Cardozo

Quem conhece este senhor?

celularEle deve ter documentos tipo CPF, identidade, carteira de trabalho, certidões, diplomas, pós-doutorado em tudo. E é mal educado. Onipresente, aquele carinha surge em qualquer ambiente, toca em qualquer lugar, grita, mia, geme, canta, e até coaxa feito sapo na lagoa onde você estiver. E se alguém tenta tirar a voz dele, não faz mal, o bicho parece um vaga-lume e acende no cinema, no teatro, nos bolsos e bolsas! O tal é o mais protegido ente querido de cada cidadão! Esquecê-lo? Nem pensar! Deixá-lo em casa sozinho é coisa inimaginável. Guardado no bolso ou na bolsa, tem que estar sempre protegido e à mão. O fulano, beltrano ou sicrano, anda atrás de todo mundo e, se descoberto seu código, atazana a vida até da Grazi Massafera. Um elemento sem ficha policial entra e sai dos salões elegantes, dos barracos, das casas de família, das mesas do poder e até dos presídios do país! São muitos, mais que tantos. Quando quer falar só precisa acender ou fazer seu som: lá vai alguém falar com ele. É tão poderoso que entra nos ônibus, nas barcas, nos aviões, nos vagões do metrô ou dos trens colado na orelha de quase todo mundo. As moças solteiras e fogosas não têm mais pra quem olhar: todos os rapazes estão agarrados nele e as moças agarram os seus. Aquelas conversas inusitadas, inesperadas, nas ruas, nos cafés, nas filas, no comércio, num banco de praça? Esquece, o tal sempre aparece primeiro! Poderoso, o mequetrefe se mete até nas salinhas pequenas de espera nos consultórios médicos. Quando não fala normalmente coisas que você não quer ouvir, fica apitando até ser atendido. Nem criança recém-nascida tem tanta prioridade. E o indivíduo ganhou tamanha importância que faz filmes e fotos de quem bem quiser. As fotos aparecem em instantes no mundo inteiro. Uma criança que só viveu cinco minutos já passou pelo cara e fica estampada nas telas dos computadores de quem quiser ver. Indecente, insolente, deselegante, mancando numa perna magrinha ou numa coxa grossa, o enxerido é pequeno e desavisado nas mãos de quase todo mundo. Adora um ouvido o talzinho, mas, como sabe que é sumo importante, fala longe da orelha também. E aí ele se esbalda porque sua voz faz coro com os barulhos da cidade, e tudo fica quase dominado por ele! O cara nunca senta silencioso numa mesa de bar e não é de oferecer oportunidades de coisas presentes. Ele gosta mesmo é de levar o quarto pra praia, o jantar pra loja, a cama pro banheiro, o namoro pro açougue, o negócio pro bar, tudo de um lugar a outro, tirando gente de perto da gente. Ele leva a companhia viva, de corpo e alma, pra dentro dele. Tem gente que diz que ele é o mundo nas mãos. É nada, o tal tem a vida de quase todomundo dentro dele e espalha pelo mundo! Eu, hem, senhorzinho maluco e “importunante”!

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