Capa

O desafio de escolas e profissionais da área na busca do uso da tecnologia para atualizar o processo de aprendizagem e estimular o desenvolvimento dos alunos

Texto_Fred Pacífico
Fotos_Arthur Moura

A informação está ao alcance de todas as pessoas. Mais precisamente na mão de todos, através de seus smartphones, tablets e computadores portáteis. Uma realidade cada vez mais comum nos diversos ambientes sociais existentes. Por isso mesmo, não poderia ser diferente em nossas escolas.

As Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) estão presentes em todos os lugares de nossa sociedade. Principalmente na vida das novas gerações, seja em suas próprias casas, lan houses ou aparelhos celulares. Essa transformação impõe um novo paradigma aos educadores e instituições de ensino de todo o mundo. Cada vez mais é preciso integrar o conteúdo à tecnologia, e capacitar melhor os professores. Os educadores vêm buscando repensar as estratégias de aprendizagem e ensino, assim como a forma que os próprios profissionais, instituições e alunos se relacionam com esses aparelhos e suas possibilidades.

Se a década de 1990 foi marcada pela preocupação e inserção gradativa dos laboratórios de informática na escolas, os aparelhos, atualmente, são trazidos pelos próprios alunos, em suas bolsas e bolsos. “Da parte das escolas, mais importante do que a aquisição de aparelhagem física é o investimento em infraestrutura dos espaços e a capacitação dos professores. Essa é uma tendência mundial e, gradativamente, a mentalidade das instituições de ensino vem mudando sobre as TICs na educação e seu caráter transdisciplinar. Existe uma busca pela melhoria da qualidade do encontro que acontece em sala de aula e as tecnologias podem potencializar a aproximação da escola à vida dos estudantes”, explica Mônica Araújo, professora de tecnologia e artes digitais da Escola Americana do Rio de Janeiro (EARJ), localizada na Gávea.
A especialista explica que a instituição vem alterando a forma de lidar com as TICs em suas dependências e, nos últimos anos, passou a disponibilizar rede sem fio em todo ambiente da escola. Conteúdo pedagógico, trabalhos realizados e materiais de apoio estão disponíveis online, podendo ser acessados pelos estudantes, professores e responsáveis. Os alunos são incentivados a trazerem seus próprios computadores, recebendo no início do ano letivo, inclusive, uma sugestão das especificações mínimas necessárias nos portáteis para que sejam utilizados como ferramenta durante as aulas.

A prática tem sido bem recebida pelos alunos. “Estudo aqui desde os três anos e acompanhei toda essa mudança da escola. Ter acesso wifi e poder pesquisar online é maravilhoso. Meus livros e cadernos estão dentro do meu computador agora. Meus conteúdos estão na nuvem e podem ser acessados de qualquer lugar. Até minha mochila está mais leve. Acredito que a escola, finalmente, se atualizou para acompanhar os novos tempos. Toda nossa vida passa pelo online. Então, porque a escola vai ficar de fora?”, diz a estudante do último ano do ensino médio, Cristina Fraga.

A função do educadormateriacapa02

Para a professora Mônica, a transformação que a escola vem passando nos últimos anos é muito positiva. “As novas tecnologias possibilitam que os professores voltem a sua função original, a de orientadores na construção do conhecimento de seus alunos. A informação está disponível para todos atualmente, o que é preciso é quem oriente o acesso e o desenvolvimento do aprendizado dos estudantes, sabendo aproveitar as potencialidades existentes. O aluno desta geração é ativo e se sente aliviado ao ver as TICs integradas ao seu processo de aprendizado. Acabou o tempo da educação ‘bancária’, conceituada por Paulo Freire. A tecnologia possibilita a educação ‘problematizadora’. Agora aprendem tanto o professor, quanto o aluno, e isso é muito saudável. É um caminho sem volta”, diz.
Não se engane pensando que essa é uma realidade somente das redes particulares de ensino. Muito pelo contrário. Tanto escolas públicas, quanto as privadas vivem juntas esse momento de transformação, experimentando e construindo novos caminhos com muita pesquisa e troca de informação.

As novas tecnologias possibilitam que os professores voltem a sua função original, a de orientadores na construção do conhecimento de seus alunos" Mônica Araújo, professora de tecnologia e artes digitais da Escola Americana

As novas tecnologias possibilitam que os professores voltem a sua função original, a de orientadores na construção do conhecimento de seus alunos”
Mônica Araújo, professora de tecnologia e artes digitais da Escola Americana

Novas possibilidades

Abraçada pela generosa Mata Atlântica, quase no topo das encostas do Alto Gávea e da Rocinha, bem em frente à Escola Americana, fica a Escola Municipal André Urânio, em um prédio totalmente repensado e adaptado para receber o Ginásio Experimental de Novas Tecnologias Educacionais, conhecido por Projeto Gente (gente.rioeduca.net).
A instituição se apropria totalmente das novas tecnologias educacionais e experimenta um novo modelo de escola, sem, com isso, abandonar as disciplinas essenciais. Todas as habilidades, temas, competências e conteúdos são desenvolvidos em 32 aulas digitais, divididas ao longo do ano letivo e baseadas nas orientações curriculares da Secretaria Municipal de Educação (SME-RJ). Focando em repensar o que é atualmente a escola como instituição de ensino e a dinâmica de aprendizado, as TICs se inserem como ferramentas principais nesse processo que vem acontecendo no Projeto Gente. Na escola os laptops, smartphones e tablets também são parte essencial do material escolar do corpo docente e dos alunos, que estão no centro do desenvolvimento da aprendizagem.

materiacapa03

Segundo a coordenadora do projeto, Alice Ribeiro, a escola trabalha com um currículo expandido e com processos de aprendizagem personalizados, focando em novas metodologias educacionais. “Atualmente atendemos 180 estudantes que, ao entrarem, recebem um laptop e passam por uma avaliação diagnóstica na qual buscamos identificar deficiências de aprendizagem, cognitivas e socioeducacionais. Criamos com isso um mapa com uma lista de competências e habilidades que os alunos tanto já possuem, quanto ainda precisam desenvolver. Além disso, na entrevista buscamos identificar quais os interesses e sonhos daquele indivíduo, para auxiliarmos na construção de um projeto de vida”, explica.

Potencializando um projeto de vida

Feito o diagnóstico individual, os alunos recebem um itinerário informativo próprio, voltado para suas características, interesses e individualidade. Nele constam as atividades da Educopédia (educopedia.com.br) que cobrem cada habilidade – uma plataforma online colaborativa com aulas criadas e revisadas por professores da rede municipal de ensino. As avaliações também acontecem online, por meio da chamada Máquina de Testes, um sistema de avaliação digital com questões criadas por mais de 100 professores municipais. Os alunos passam pelo sistema regularmente, quando encerram suas atividades na Educopédia, e bimestralmente, como avaliação de desempenho.

Projeto Gente: na biblioteca, livros e gadgets convivem em harmonia em prol do aprendizado; abaixo, professor orienta aluna em aula do projeto

Projeto Gente: na biblioteca, livros e gadgets convivem em harmonia em prol do aprendizado; abaixo, professor orienta aluna em aula do projeto

Você deve estar se perguntando “E o professor?”. Bem, Alice explica que “os professores do projeto recebem cursos de capacitação e educação continuada para atuarem como mentores dos alunos, que são divididos em grupos de 18 e ficam sob a tutela de um professor mentor. Esse professor mentor, além de auxiliar os estudantes e acompanhá-los nas aulas práticas que acontecem uma vez por semana, também procura encaminhá-los para algumas das disciplinas eletivas existentes, auxiliando na construção e evolução do projeto de vida de cada aluno”.
Língua Estrangeira, Educação Física e Artes compõem as aulas presenciais obrigatórias. Dentre algumas das disciplinas eletivas oferecidas estão: robótica e mecatrônica; Inteligência Artificial (curso da Universidade de Stanford); programação básica; webdesign; etc.

Período de transição

Tais exemplos são iniciativas e experimentações novas. Ainda há muita estrada para se percorrer até que as TICs estejam realmente integradas aos sistemas pedagógicos de nossas escolas públicas e privadas. O Colégio pH, em Botafogo, também vem, aos poucos, procurando adaptar-se a nova realidade.

Na visão de Rui Gomes de Sá, diretor de ensino do pH, o futuro será um meio termo. “Haverá uma mescla e adaptação dos modelos tradicionais para que os benefícios e potencialidades introduzidas pelas TICs sejam fortalecedores do processo de aprendizagem. Nenhum colégio atualmente pode deixar de pensar nisso. As aulas tornam-se muito mais dinâmicas, atraentes e visualmente interessantes aos alunos. Prendem sua atenção, pois falam a mesma linguagem”, opina.

O colégio já disponibiliza algumas funcionalidades como material didático, através de uma intranet e de aplicativos específicos. Além de estar presente e procurar estabelecer comunicação com alunos e familiares através das redes sociais mais utilizadas e interessantes para os estudantes, como a ask.fm, uma rede social na qual os usuários recebem perguntas de outros usuários em uma caixa de entrada, de onde podem escolher entre respondê-las ou excluí-las. “A ask.fm tem sido muito aceita para a interação entre alunos e professores, que podem rapidamente sanar dúvidas que surjam durante seus estudos”, diz. Segundo o diretor, o próximo investimento do colégio será a estruturação de uma rede wifi que atenda todas as dependências comuns da instituição. “Pretendemos que, nos próximos anos, os alunos já possam utilizar seus aparelhos móveis de forma integrada com o programa do professor em nosso colégio”.

Uma longa estrada

Lógico que nem tudo ainda são flores. Os paradigmas da educação estão em xeque. As novas gerações de estudantes não têm mais os professores como os grandes e únicos detentores do conhecimento. Uma informação no antigo quadro negro pode, cada vez mais, ser complementada pelos próprios alunos, quando não, questionada totalmente. Situação que, vale ressaltar, assusta muito educadores mais ortodoxos. Temor muitas vezes causado pelo desconhecimento ou falta de preparação adequada para inserção das TICs como ferramentas pedagógicas nas dinâmicas educacionais.

Para a coordenadora de educação da Unesco no Brasil,  Maria Rebeca Otero Gomes, mais importante do que proporcionar o acesso aos aparelhos em si, é ofertar capacitação e treinamentos apropriados aos educadores. “É uma recomendação da Unesco que os gestores se atentem para a utilização das tecnologias móveis e as aprimorem, integrando-as como parte do projeto pedagógico. É importante a atenção das instituições de ensino para a expansão dessas tecnologias na educação formal, dentro das escolas, como continuidade das salas de aula, e possibilidades de educação não formal, como em programas de alfabetização, no meio rural, dentre outras capacidades”, diz.

Segundo Rebeca, a utilização das TICs integradas aos projetos pedagógicos é a melhor maneira de se estabelecer uma ponte com essa nova geração de estudantes. “Vivemos em um mundo em transformação, cada vez mais globalizado. Os ritmos são outros, que influenciam, inclusive, a própria velocidade e forma de construção do conhecimento. É bastante interessante que os professores possam usar as tecnologias para o bem da educação. Os alunos reconhecem bem essas linguagens e temos que adaptar essas escolas para utilizá-las nas salas de aula. Redes sociais podem ser usadas para realização de dever, discussões, é uma linguagem que funciona muito bem. Não deve ser proibido, deve ser orientado”, afirma.

"Estudo aqui desde os três anos e acompanhei toda essa mudança da escola. Ter acesso wifi e poder pesquisar online é maravilhoso. Meus livros e cadernos estão dentro do meu computador agora. Cristina Fraga, estudante

“Estudo aqui desde os três anos e acompanhei toda essa mudança da escola. Ter acesso wifi e poder pesquisar online é maravilhoso. Meus livros e cadernos estão dentro do meu computador agora.
Cristina Fraga, estudante

Se bem utilizadas, as TICs permitem que a aula se prolongue e o universo virtual seja uma extensão da escola. “Os professores deveriam ter condição de tempo e recurso financeiro para se preparar e terem seus próprios equipamentos como ferramentas de trabalho, além de formação, que é muito importante para os professores estarem preparados para lidar com a demanda desses novos alunos. Acontece que o sistema ainda é conservador, demora a se adaptar. Quando chega a um determinado padrão, é bem possível que já  esteja obsoleto”, avalia a coordenadora.

De acordo com último TIC Educação, pesquisa realizada, em 2012, pelo Centro de Estudos sobre as Tecnologias da Informação e da Comunicação (CETIC.br) sobre o “Uso das Tecnologias da Informação e da Comunicação no Brasil”, 97% das escolas privadas e 89% das públicas do país, possuem conexão à internet em suas dependências. As redes sem fio também estão presentes, representando 73% e 57% da disponibilidade, respectivamente. Mesmo assim, o último estudo mostra que, por mais que tenha havido um crescimento do número de computadores portáteis também nas escolas públicas, a velocidade da conexão ainda é um limitador para o uso das ferramentas.

Promessa é dívida

Já o MEC e a Secretaria de Estado de Educação (Seeduc-RJ) também estão na corrida para tentar equilibrar a matemática. Segundo a Seeduc-RJ, desde 2008 foram entregues mais de 120 mil aparelhos portáteis a professores e alunos da rede estadual de ensino. A Secretaria afirma que, até o final deste mês de novembro, será finalizada a entrega dos tablets referentes ao programa em parceria com o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), anunciados em abril e prometidos para ser entregues até o fim de julho deste ano.

Se forem mesmo distribuídos todos os equipamentos ainda este ano como prometido, chegarão à rede estadual 30.540 tablets para professores, 90 para Núcleos de Tecnologia Educacional (NTE) e 700 para unidades escolares. A ideia do Governo do Estado, de acordo com uma matéria publicada no dia  15 de abril deste ano, no próprio site do Governo sobre o programa de distribuição, é que, com os aparelhos, os professores possam acessar os conteúdos pedagógicos disponíveis no site Conexão Professor (www.conexaoprofessor.rj.gov.br) e as escolas tenham kits com projetores que poderão ser conectados aos tablets para a exibição do material nas salas de aula.

Podemos dizer que já será alguma coisa se, junto com tablets e laptops vier também a correta capacitação dos profissionais. Além do investimento em banda larga sem fio nas escolas e da disponibilidade de tempo preciso para que esses educadores possam pensar e estabelecer as estratégias necessárias para inserção das TICs em suas dinâmicas educacionais e programas pedagógicos, conforme a recomendação da Unesco.

MATÉRIAS ANTERIORES DE Capa

Publicado em – Edição 117
Mobilidade urbana sobre duas rodas
Publicado em – Edição 116
Adrenalina por opção
Publicado em – Edição 115
Programação de Verão de Cabo Frio e Búzios
VN:F [1.9.22_1171]
Rating: 5.0/5 (4 votes cast)
O desafio de escolas e profissionais da área na busca do uso da tecnologia para atualizar o processo de aprendizagem e estimular o desenvolvimento dos alunos, 5.0 out of 5 based on 4 ratings

Deixe um comentário