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airros Cariocas

Clima bucólico, com toda a estrutura

Igreja Nossa Senhora da Glória Largo do Machado

Igreja Nossa Senhora da Glória
Largo do Machado

Catete, Largo do Machado, Laranjeiras, Cosme Velho

texto_Juliana Alves
FOTO_Arthur Moura

Como bom carioca, a Folha sempre aborda o Rio de Janeiro de diferentes maneiras. E a partir deste mês nossas páginas farão um passeio pelos bairros dessa cidade que tanto amamos para conhecer um pouco mais cada pedacinhos, através de pessoas que escolheram viver “ali”. Foi difícil decidir quais seriam os primeiros passos em meio aos charmosos 1.260 km² (aproximadamente) que nos tornam a segunda maior metrópole do Brasil, e então escolhemos as redondezas de onde quase tudo começou.


E como mudou… Catete, Largo do Machado, Laranjeiras, Cosme Velho, das chácaras aos prédios, comércio e casas. Porém, qualquer passada rápida pela região faz lembrar a importância e o brilho que o Rio teve para o país. No Catete, os exemplos são o atual Museu da República, antigo Palácio do Catete, a sede do governo brasileiro entre 1897 e 1960, e o prédio da 9ª Delegacia Policial desenhado pelo premiado arquiteto Heitor de Melo, responsável também pelo Castelinho do Flamengo, que já foi sede do Jóquei Clube e da Polícia Central.

bairros2Nessa região nobre e repleta de História e personalidades históricas, vive Maria do Socorro Ribeiro. Nascida em São Luís, no Maranhão, adotou o Rio de Janeiro depois de passar um tempo em Salvador e daqui não sai mais. “Minha paixão é a Buarque de Macedo. Eu me identifico muito com o bairro e com as pessoas. As academias, os mercados, as lojas, os restaurantes das mais diversas especialidades, os cinemas, os bares, tudo é muito perto. Sou uma verdadeira apaixonada pelo bairro”.

A Rua Buarque de Macedo, com seus famosos bares Bunda de Fora e Tiroteio, fica bem próxima ao Largo do Machado que é considerado um bairro por muitos, mas faz parte do Catete. É possível que essa confusão aconteça devido ao fato de ser um lugar bastante independente: bancos, fast foods de grandes redes, culinárias japonesa, italiana, árabe e muitas outras, farmácias, lojas de sapato, roupas e salões de cabelereiro. O comércio se espalha pelas duas galerias e por todo o Largo. E lá já foi um dos polos de cinema, assim como a Cinelândia e a Tijuca.
Para Maria do Socorro, a grande mudança nos últimos anos foi a construção da estação do metrô: “Foi uma verdadeira revolução. A obra provocou muitos transtornos, e a aceitação só aconteceu quando os moradores puderam aproveitar a praticidade de chegar em qualquer lugar rapidamente”. Quem não mora lá também é beneficiado com esse transporte, inclusive os visitantes do Corcovado, já que diante da proibição da venda de ingressos aos pés do monumento, foram instalados guichês e criado estacionamento de vans para esse traslado.

Dos 40 anos de Cidade Maravilhosa, Maria mora há 32 no Catete e se lembra com saudade da época em que era mais tranquilo passear a noite pelo bairro. “Saí do Bairro de Fátima um ano antes do meu filho nascer e os dois foram criados aqui. Os saraus, as serestas, os luaus, fazíamos todo tipo de festa na praia. Atualmente, o número de menores nas ruas aumentou muito e todos sentem a necessidade de uma segurança ostensiva. Não faço parte da Associação de Moradores por falta de tempo, mas sempre que posso, colaboro com opiniões”.
A escolha da região foi devido à proximidade da praia: “Meu lugar preferido é o Aterro; é só atravessar a avenida e já estou à beira mar. As extremidades são pouco atraentes, mas na altura do Flamengo é bem agradável. Já temos até identificações como os Postos 2 e 3. Para mim, é um dos bairros mais elegantes do Rio de Janeiro”.

bairros3Cosme Velho de hoje e sempre

Paulo Cesar Moreira de Castro, carioca, morava no Leblon em um apartamento pequeno, e resolveu procurar algo maior diante do nascimento da sua segunda filha. “Cheguei aqui em 1982 e acredito que o prédio onde moro tenha sido uma das últimas construções do bairro. É bem encostado ao morro e o clima é sempre frio; o lugar é lindo e vai continuar assim porque, como foi tombado, nada pode mudar”.

Para ele, é maravilhoso ser vizinho de uma das sete maravilhas do mundo e na época em que trabalhava no Jornal do Brasil, subia o morro de carro, corria e depois tomava banho nas cachoeiras antes de colocar o terno para enfrentar mais um dia. “São várias quedas d’água. Mas falta um pouco de tranquilidade por ser um ponto turístico muito visitado. A nova medida que proíbe a venda de ingressos no local ajudou a diminuir a confusão. Outra mudança importante foi a construção do terminal para os ônibus que antes faziam da Praça São Judas Tadeu um estacionamento com barulho de motor e ar condicionado ligados desde cedo”.

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Rua General Glicério – Feira de Hortifrúti

Não pode haver mudanças, mas as melhorias são bem-vindas. Sua paixão pelo bairro fez dele diretor da Associação de Moradores nos anos 90, uma experiência gratificante tanto pelo aprendizado sobre o Cosme Velho, quanto pelo convívio com as pessoas que gerou até dois blocos de Carnaval, a Banda do Cosme Velho e o Concentra Mas Não Sai.

E durante toda a entrevista, uma adorável aula de História: “Ali tem o Largo do Boticário com uma arquitetura linda que transporta as pessoas para o Rio antigo, a Bica da Rainha utilizada pela própria que era seguida pelas mucamas, daí a expressão “Maria vai com as outras”, e por aí vai. Do Cosme Velho, chamado antes de Águas Férreas, até o Largo do Machado, somente chácaras cercavam o Rio Carioca. De acordo com a lenda, os portugueses, apelidados de akari pelos índios em referência ao peixe cascudo, chegaram à Baía de Guanabara e construíram uma casa de pedra na foz do Rio Carioca, na Praia do Flamengo. Os tamoios a chamavam de akari oka “casa do homem branco”, e ao longo do tempo, surgiu a palavra “carioca”.

Rua General Glicério

Rua General Glicério

Nesses últimos 30 anos, o comércio do entorno teve um aumento significativo oferecendo mais opções aos moradores em todos os sentidos. O trânsito também mudou: passar pela Rua das Laranjeiras exige uma dose especial de paciência, principalmente nos horários de entrada e saída dos colégios. “Durante as manifestações, os congestionamentos foram mais pesados porque as ruas de acesso ao Palácio Guanabara estavam fechadas, uma questão inevitável. Às vezes também é complicado estar próximo ao Rebouças, mas ainda que muitos pensem que atrapalha, ninguém mais vive sem esse túnel. Enfim, não há o que mudar. Na verdade, não há como mudar”, afirma Paulo. Além de gostar do lugar e aproveitá-lo muito bem, Paulo se sente realizado por ter conseguido se estabelecer profissionalmente na região com a culinária nordestina no Severyna, uma proposta que, na época, tinha dado certo para ele somente na Zona Norte.

No berço das Laranjeiras

Laranjeiras… A linda e charmosa Laranjeiras, um dos bairros mais antigos da cidade batizado assim, segundo a lenda, devido às antigas plantações de laranjas que ocuparam a região. Por volta do século XVI, XVII, tudo era sesmaria, mas a paisagem mudou bastante com a construção da fábrica de tecidos Aliança na Rua General Glicério, em 1880, antiga Companhia Econômica de Lavanderia a Vapor, que impulsionou a construção de vilas operárias que podem ser vistas até hoje na Rua Pires de Almeida, além de outras residências. Nessa rua, atualmente, além da feira de hortifrúti, acontece a feira de artesanato com direito a chorinho, convidados  e muita gente bonita todos os sábados até às 15h.

bairros6E não há como continuar falando de Laranjeiras sem falar de quem está lá há mais de 60 anos. “O senhor é carioca?” “Sim, sou carioca. Em Portugal não conheço nada; só conheço o meu Brasil”. Edgar da Costa Maia veio para cá aos cinco anos, e foi morar em Laranjeiras com seus 13 anos e o ofício que tinha aprendido no Centro do Rio: cabelereiro. “Consegui ter o meu salão durante 20 anos e cortei cabelos de gerações de muitas famílias. Sou conhecido em toda essa região, inclusive em Santa Teresa, onde todos demonstram um grande carinho por mim”.

Parque Eduardo Guinle

Parque Eduardo Guinle

Para ele, as pessoas representam a parte mais encantadora do lugar. “Tive uma pizzaria com mais de dez entregadores sem ao menos umproblema, e isso é porque sempre me preocupei em respeitar as pessoas. E tenho orgulho da minha filha porque vejo que ela também é assim; quem a vê diz que está seguindo os passos do pai”. Dizem que cada pessoa tem um dom, mas no sr Edgar, é difícil identificar algo em meio a tantas coisas boas. Ele é uma celebridade consagrada: foi duas vezes tema do samba do bloco Volta Alice, participou do filme Bonitinha, Mas Ordinária, e já sentou ao lado de Jô Soares para falar de sua saborosa feijoada de frutos do mar.

Sua disposição o ajudou a driblar, recentemente, um AVC que o deixou parado “por apenas algumas horas. Foi o tempo do atendimento no hospital e, no dia seguinte, mesmo contra as ordens médicas, estava abrindo o bar”. Atualmente, ele trabalha no Tascas do Edgar que fica no começo da Rua Alice, uma das mais famosas do bairro também por abrigar um antigo prostíbulo de luxo, a Casa Rosa, por onde passou gente de todas as classes sociais, e que atualmente é um centro de estudos e divulgação da cultura popular brasileira. Ali bem próximo, na Rua das Laranjeiras, 291, foi a sede da TV Continental entre 1959 e 1972, com o maior estúdio do Brasil, onde hoje fica uma concessionária de automóveis.

Mercado São José: • "Floral", Ateliê Luzia Mariana • Estúdio Casa do Músico • Imagem de São José

Mercado São José:
• “Floral”, Ateliê Luzia Mariana
• Estúdio Casa do Músico
• Imagem de São José

bairros8Instituto João Alves Affonso, na Ipiranga, Instituto Nacional de Educação de Surdos, nas Laranjeiras, Palácios Guanabara (sede do Governo do Estado) e Laranjeiras (residência oficial do governador do Estado) são grandes marcos locais, mas muito da arquitetura antiga foi preservada por todas as ruas, o que permite um belo passeio pelo passado com toda a praticidade do presente. Restaurantes, igrejas, bares, lojas dos mais diversos ramos, tudo entra em harmonia com a tranquilidade do bairro. Para a criançada, o Parque Eduardo Guinle, uma Área de Preservação Ambiental (APA), é excelente. O Mercado São José, antiga senzala na época do Império, mercado de hortifrúti durante o governo de Getúlio Vargas e hoje construção tombada depois de um bom tempo de abandono, tornou-se concentração de gastronomia, cultura e arte como, por exemplo, o ateliê Luzia Mariana, assim como a Praça São Salvador. Talvez esse resumo consiga explicar porque Seu Edgar diz que “no bairro, tudo é muito bom, não precisa mudar nada”.

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Um Comentário para “Clima bucólico, com toda a estrutura”

  1. juarez disse:

    oi voce tudo surdo bem

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