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Gisela Gold

Boa de ouvido

Agnalda tinha uma mania de respeitar seu coração. Sempre que o bandido falava para olhar ali, ela olhava. Ai dela se questionasse. Podia ser a rainha da Inglaterra passando que ela não arredava o pé dali.
E tanta coisa boa passava pela moça, era gente para conversar no balcão de padaria, mas a cabeça continuava mirando o que o coração mandou. Até o arco-íris do outro lado surgia. Mas a íris de Agnalda ficava cinza quando não mirava o que coração mandou.

Até o momento que a moça se deu conta de um detalhe importante: ela mirava o que o coração falara, mas o alvo não lhe devolvia o olhar. Esse sim olhava as cores, as pessoas nos balcões de padaria, os transeuntes em outras esquinas nas quais Agnalda não pisava. Ilustra-Gisela-copy

Os dias mudavam de roupa, até o sol inventava de alaranjar diferente, mas Agnalda continuava ali de olho parado. Cada minuto era eterno e demorava a passar. A passageira que nunca saltava do ônibus, assim sentia.

Hora dessas uma poeira honesta invadiu a vista da moça e sem perceber Agnalda olhou para o lado oposto. Alguém lhe perguntou as horas, logo depois na fila da feira comentaram que a banana estava de graça. Conversa vai, conversa vem, ela pegou-se distraída com os olhos. Eles relaxavam enquanto os ouvidos se abriam para o mundo. Um mundo que dormiu enquanto Agnalda paralisava o olho.

As horas passaram e Agnalda teve medo de se contar um segredo: foi muito feliz com seus ouvidos. Era bom descansar os olhos de um coração cego de tanto ver uma coisa só. E de tanto ver uma só coisa, esqueceu que também batia. E batida não se vê, se escuta. Escuta como quem percebe que o mundo lá fora pode ser gentil com quem ouve. Lembrou de pessoas que a tocaram pelos ouvidos. Como canção que emociona sem precisar que olho veja nada.

 

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