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Lilibeth Cardozo

Um passeio pela Urca

Um bairro que preserva o clima bucólico e as belezas naturais, mas convive com problemas que ameaçam a qualidade de vida

Texto e fotos_Lilibeth Cardozo

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Foto Aérea: Arthur Moura

Cariocas (ou não), por diferentes razões, escolheram a Urca, bairro onde nasceu a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, para morar. Sendo pequeno como um berço, o bairro aconchega pouco mais de 7 mil pessoas e parece um povoado no meio da grande metrópole.

Um pouco da história de onde o Rio começou

A história do povoamento das terras do que hoje é conhecido como Urca remonta ao início da cidade do Rio de Janeiro. Até o final do século XIX, o bairro não existia, porque as águas da baía de Guanabara batiam diretamente nas rochas que circundam os morros da Urca e do Pão de Açúcar. O acesso só era possível pela praia, de fora, na Fortaleza de São João.

IMG_2634-copyEstácio de Sá, sobrinho do Governador Geral Mem de Sá, em 1º de março de 1565, fundou a cidade, construindo, na entrada da baía, em uma praia localizada entre os morros Pão de Açúcar e Cara de Cão, uma fortificação composta por casinhas simples feitas de troncos de madeira e barro, cobertas de palha, ao lado das quais perfurou um poço para abastecimento de água potável. Na pequena vila, batizada em homenagem a Dom Sebastião, rei de Portugal, foram estabelecidas as bases para sua colonização.

Em 1921, a Sociedade Anônima Empresa da Urca, assinou um contrato para a construção do bairro e de um cais ligando a praia da Saudade (na entrada do bairro) à Fortaleza de São João.Para a área onde se pretendia construir o Hotel Balneário, aumentou-se a faixa de areia com diques de proteção contra a água do mar. A praia ficou com o mesmo formato atual. O prédio do Hotel Balneário nunca se tornou um grande empreendimento, mas ficou famoso quando foi transformado no Cassino da Urca, em 1933, com jogos e shows de artistas nacionais e internacionais. Em 1946, o estabelecimento foi fechado devido à proibição dos jogos de azar.

Na década de 50, o prédio voltou a ser ocupado, dessa vez pela TV Tupi, canal 6, dos Diários e Emissoras Associados, que ficou ali até fechar as portas em julho de 1980.Desde 21 de novembro de 2006, o local,até então sob posse da prefeitura, foi cedido sem licitação pública ao Instituto Europeu de Design-IED, uma instituição estrangeira, com contrato de concessão de 50 anos. O IED, com direito de ter mil e quinhentos alunos, professores, técnicos e auxiliares, segundo estudos de urbanismo e meio ambiente, não cabe na Urca. Militantes do movimento pela preservação dos recantos cariocas afirmam que uma escola deste porte provocará um fluxo de carros que, em poucos meses, sufocará o bairro.

Moradores são apaixonados pelo bairro

Do tecido costurado pelo homem com os fios da natureza nasceu o espaço urbano em que a convivência se harmoniza. E na Urca ainda se encontram os retalhos feitos com os primeiros fios, trazidos por Estácio de Sá, quando, em meio à mata, abrindo trilhas, ouvindo pássaros, com medos e bravuras, fundou nossa cidade. Florence Mellon é francesa e recém-chegada à cidade. Junto com sua família, veio pro Rio devido à transferência de seu marido para uma empresa multinacional e nos diz: “A Urca parece uma aldeia. Quando chegamos à cidade, visitamos outros bairros e conhecemos mais famosos da Zona Sul, mas foi aqui que encontramos identidade. Temos três filhos e estamos muito felizes neste lugar”.

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Nascida na Urca, Pilar Domingo também vê o bairro com os mesmos olhos carinhosos.A artista plástica sempre morou ali e vive em uma casa na primeira rua aberta na cidade, com sua mãe Conchita, 95 anos, seu irmão Pedro Benet, e sua filha Maria Matina, que se dedica à arte-terapia. “A Urca é uma nau: é o dentro que vê o fora. O Pão de Açúcar é uma obra do sagrado. Nossas casas fazem um muro de onde contemplamos os barquinhos navegando sobre os telhados”.

Um passeio pelo bairro da Urca começa e acaba em beleza e prazer. Entrando pela Avenida Pasteur, prédios antigos e de arquitetura secular compõem a boa recepção. A imagem da imponente pedra do Pão de Açúcar afaga o coração que, nesta época do ano, exibe suas entranhas de diferentes nuances construídas pelo tempo, onde nascem pequenos arbustos que colorem de verde e de vida a paisagem.

IMG_1504-copyBeatriz e Bernardo moram próximo à estação do bondinho e vivem o cotidiano da convidativa Praia Vermelha. “Esta área tem uma energia fantástica devido ao turismo intenso que acontece por conta do Pão de Açúcar.Mas ando bastante decepcionada com a falta de cuidado dos próprios moradores e com a falta de união e de entusiasmo da associação de moradores. Além disso, a prefeitura custa a atender as nossas reivindicações relacionadas às necessidades do bairro”, desabafa Beatriz.

Um passeio pelo ancoradouro, batizado pelos moradores de “quadrado”, descortina a baía. Os barquinhos têm diferentes cores e tamanhos, todos de madeira e carregados de histórias dos pescadores. Uma volta no quadrado e a Rosa dos Ventos, delicadamente desenhada na calçada com pedras portuguesas no início da amurada, é lugar seguro para admirar o espelho d’água brilhante da baía. O reflexo brilha à luz intensa da chegada do verão. A imagem refletida prateia o olhar, e o leve vento provoca uma serpentina tremulante de brilho. Peixes resistentes ao lixo dão rabanadas no ar e comemoram à luz do meio da tarde. Raros pescadores, voltando lá pelas 15h em pequenas embarcações, cumprimentam um ou outro marinheiro de imponente lancha que chega ao Iate Clube do Rio de Janeiro.

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Dona Nanci 85 anos e há 76 anos assistindo a Urca mudar.

A Rua Marechal Cantuária, com o pequeno comércio, comemora as alianças com os compradores e guarda a tradição de receber pedidos e entregar mercadorias nas casas. E por lá ainda existem os mercadinhos que preservam o costume antigo da confiança e anotam em cadernos ‘os fiados’ por anos de vizinhança. Fianças modernas ficam fora da Urca!

Encontramos alguns antigos moradores que guardam a memória do bairro com muito carinho. Dona Nancy tem 85 anos de idade e há 76 vive na Urca. Ela nos conta: “minha casa foi construída por meu pai, no terreno comprado pela minha mãe, na pedreira, antes do aterro. Eu não poderia viver em outro lugar; é o último bairro do Rio onde há alguma tranquilidade”. Na Urca, a respiração não é ofegante, e passear pelas calçadas tem ares de exercitar o viver com identidade, conhecendo a história do bairro, das casas, das famílias.

IMG_1314-copyAs amendoeiras fazem o convite ao passeio pela amurada até o Forte São João. A água da baía bate em fracas ondas nas pedras, fazendo espuma. Pescadores solitários apreciam a paisagem, namorados se abraçam enquanto admiram as nuvens que cobrem e descobrem a imagem do Cristo Redentor e gaivotas mergulham destemidas em busca de peixinhos que as alimentem.

Quase ao fim da amurada, alguns visitantes, atraídos pelo álcool, falam alto e se embriagam de indelicadezas, não se importando com os vizinhos. Pintam de cores turvas o colorido dos seus passeios, sujando o chão e se esquecendo de que bares são lugares e nem todos os lugares são bares. No portão da Fortaleza São João, pode ser agendada uma visita às origens da cidade, no exato lugar onde fica o berço da sua criação.

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João Quintanilha

Nesse cenário, encontramos João Quintanilha, 60 anos de idade vividos “neste paraíso”, como acentua, e completa: “É o melhor do Rio. Aqui tudo se faz a pé, conheço todo mundo, é onde estão meus amigos. Temos o que há de mais importante na vida: sossego, ótimas relações de vizinhança, bares alegres e a bela Fortaleza de São João”.

Na Urca residem muitos estrangeiros, artistas e pessoas que valorizam o sossego e são encantados pelas belezas naturais. Dona Claudia, 81 anos, é geógrafa e curte, em sua linda casinha, a aposentadoria. Vinda da Itália com os pais, aos dois anos de idade, aqui viveu e fez sua família. Sua irmã Luciana é nascida no bairro e também construiu sua família na mesma edificação construída pela família com quatro unidades domiciliares que descem pela pedra da Urca. Mauro, filho da Dona Claudia, acompanha a mãe no carinho e satisfação com a residência e nos diz: “Não existe outro lugar no Rio de Janeiro como a Urca. Daqui minha família só sai no fim da vida”.

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Lars Grael e sua esposa

A Urca tem singularidades, e talvez a mais importante seja o fato de não ser um lugar de passagem, preservando, dessa forma seu pouco movimento de curiosos. Lars Grael, conhecido atleta brasileiro, viveu a maior parte de sua vida em Niterói, e recentemente escolheu o bairro para morar com a família. “Estamos aqui há três anos, mas sempre olhamos a Urca como uma possibilidade de residência. Fizemos uma escolha acertada. Parece uma cidadezinha do interior dentro de uma grande metrópole. Nossos três filhos (25, 16 e 13 anos) também gostam muito.”

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Ricardo Cravo Albin

Ricardo Cravo Albin, um guardião de um dos maiores acervos da Música Popular Brasileira e fundador do Instituto Cravo Albin, já teve um escritório no Cassino da Urca. Em 1989 comprou o imóvel que ocupa no primeiro edifício da Avenida São Sebastião e fala com emoção: “Quando conheci o imóvel, fui tomado de paixão. Depois convenci minha família de que um sobrenome se perde no tempo e que a criação do Instituto marcaria para sempre na história da cidade o que se produziu e se produz na nossa cultura musical. Comprei a cobertura e fizemos uma bela obra. Perto da pedra, conservamos um velho casarão onde criamos o Largo da Mãe do Bispo. Aqui sou feliz, embora tenha de conviver com descaso de muitos por este bairro que merecia ser tratado como uma joia, pois é único na geografia carioca. Enquanto eu viver, lutarei por este acervo da MPB, e gostaria que, depois de minha morte, a cultura carioca continuasse o meu trabalho. Espero quea prefeitura ofereça um espaço adequado para guardar tudo isso. Doarei com prazer, mas preciso de segurança em relação aos cuidados. É muita história e cultura bastante útil para a memória, pesquisa e história de nossa produção cultural”.

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Publicado em – Edição 117
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Um passeio pela Urca
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2 Comentários para “Um passeio pela Urca”

  1. myrian castro disse:

    A Urca é o meu paraíso!

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    08:44:12

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