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airros Cariocas

Copacabana: a diversidade mora aqui

Texto_Juliana Alves
Fotos_Arthur Moura

De uma extensa faixa litorânea aterrada, formada por chácaras e sítios, aos altos prédios, com apartamentos de tamanhos bem variados, e hotéis que se espalham desde a orla da sua praia, de mesmo nome, até os bairros de Ipanema, Lagoa e Botafogo, que limitam a região.  Essa foi a grande transformação de Copacabana, o bairro mais popular da Zona Sul Carioca, talvez de todo o país e até do restante do mundo.

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Bem antes da construção dos túneis Alaor Prata (Túnel Velho – 1892), entre as ruas Real Grandeza e Siqueira Campos, e o conhecido como do Leme (Túnel Novo – 1906) entre as avenidas Lauro Sodré e Princesa Isabel, o acesso ao bairro era bem difícil. A abertura dessas passagens foi fundamental para o rápido crescimento da população e urbanização local e o alargamento do último, em 1941, e a construção do Túnel Engenheiro Marques Porto, sua segunda galeria, em 1946, aceleraram tal processo. Uma das hipóteses da origem do seu atual nome, antes Sacopenapã (tupi), vem da chegada de uma réplica da Virgem de Copacabana junto com comerciantes bolivianos e peruanos, por volta do século XVII, o que estimulou o novo batismo.

Sonho de adolescente

Marquinhos Copacabana

Marcos Antônio de Oliveira da Silva ainda se lembra de quando tinha 15 anos e cruzava o Túnel Novo para trabalhar em uma feira de hortifrúti com o seu pai. “Aquela iluminação era especial e até parecia outra cidade. Cresci no Cachambi e sempre tive vontade de morar aqui, mas considerava a ideia um sonho. Mais tarde, comecei a trabalhar no Centro, época em que morava em Anchieta, e decidi mudar para algum lugar próximo ao escritório em busca de qualidade de vida. E, em 1986, aluguei uma quitinete onde tanto sonhei”.

Ainda em 86, Marcos adotou a dança como hobby até ser mordido pelo “bichinho da dança”, e ele jamais imaginara ter o nome do bairro em seu próprio nome. “Acabei me envolvendo e me especializando nessa prática. Sempre que podia, dançava em outros lugares da cidade e muita gente perguntava quem eu era. E as próprias pessoas respondiam: ‘aquele é o Marquinho, de Copacabana’. Hoje sou conhecido assim”.

Em 1993, o professor abriu o Studio de Dança Marquinhos Copacabana, e atualmente se dedica integralmente a sua paixão na Av. Nossa Senhora de Copacabana, 427, cujo público alvo é a terceira idade. De acordo com o Censo 2010, o bairro é o que concentra o maior número absoluto de idosos entre todos do País. “Existem teatros, restaurantes, bancos, praia, tudo muito próximo. A região oferece melhor qualidade de vida e por isso é repleta de pessoas que vivem mais, e felizes”, afirma Marquinho Copacabana.

“Minha casa e minha academia são os meus cantinhos especiais nesse bairro maravilhoso. Temos três grandes hospitais, uma excelente UPA, transporte para todos os lugares da cidade, mas sempre pode melhorar. Apesar de um aumento relevante, acho que a segurança deveria ser mais ostensiva, principalmente próximo à praia. A polícia está sempre presente diante das diversas ocorrências, porém poderia ser algo mais estratégico e preventivo.”

A céu aberto

Praças convidativas a leituras, bate-papos e jogos de cartas e de dominó em mesinhas de concreto, como a pequena Inhangá, na Rua Marechal Mascarenhas de Moraes, a Serzedelo Correia, de médio porte localizada entre as Ruas Hilário de Gouveia e Siqueira Campos, e a grande do Lido, à beira da Av. Atlântica, onde são realizadas feiras livres e de artes, também compõem o quadro “um bom lugar para se viver”.

Desde as comunidades dos morros Pavão-Pavãozinho e Cantagalo, até a beira do mar, tudo é realmente bastante próximo. E as lojas são das mais requintadas até as de fábrica, uma peculiaridade, inclusive, do Santa Clara, 33, um centro de compras com mais de 200 lojas. É fácil até renovar os móveis de qualquer canto da casa: são tantas lojas de mobílias tradicionais e planejadas concentradas no começo da Barata Ribeiro, que é possível considerar a área um verdadeiro polo de decoração e design.

“Mais copacabanen­se que carioca”

Jane Di Castro-2533Assim se considera Jane Di Castro, uma das travestis mais famosas do Brasil, moradora do bairro há 44 anos. “Desde pequena, quando ainda vivia em Oswaldo Cruz, vinha para cá e costumava ficar em frente ao Copacabana Palace, cuja beleza sempre me impressionou. Sua arquitetura e iluminação tornam o visual um dos mais lindos do mundo”.

Construído em estilo neo­clássico e inaugurado em 1923, o Copacabana Palace Hotel, um projeto do arquiteto francês Joseph Gire, foi o primeiro grande edifício do bairro e transformou-se em um glamouroso símbolo do Rio de Janeiro. Presidentes, atores, músicos e atletas, entre outros, do Brasil e do mundo já assinaram o Livro de Ouro como o Príncipe Charles, Nelson Mandela e Mick Jagger, e muitos desses fazem parte da sua galeria de fotos. Em 1985, o hotel foi tombado como patrimônio histórico em níveis federal, estadual e municipal.

Dorival Caymmi

Dorival
Caymmi

Outro marco da região se estende ao longo de toda a orla: o calçadão da praia de Copacabana. São quase 4 quilômetros reconstruídos com pedras portuguesas, em 1970. O paisagista brasileiro Roberto Burle Marx foi o responsável pelo novo desenho, que imita as ondas do mar com o mosaico de pedras brancas e pretas, um verdadeiro cartão postal conhecido no mundo todo. E ainda há as homenagens feitas através de estátuas em bronze aos ilustres moradores Carlos Drummond de Andrade, Dorival Caymmi e Ibrahim Sued, além da que imortaliza o episódio dos 18 do Forte.

Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Histórias que se misturam
Jane Di Castro-2575Nos anos 60, Jane fazia shows na Boate Drink do Cauby Peixoto, no Beco das Garrafas, no Bacará, e convivia com a boemia do Lido considerada, de fato, o berço da bossa nova. Cada vez mais o bairro se tornava parte de sua vida, até que decidiu morar aqui. “Copacabana parece um subúrbio com praia porque todos se conhecem, cumprimentam-se, conversam entre si, diferente de outros bairros da Zona Sul. Não precisamos sair daqui para nada. E meu cantinho especial em meio a isso tudo é onde estou agora, em frente ao Copacabana Palace”.

Além de atriz, cantora, empresária e síndica, Jane também domina a arte das madeixas: “Não me considero cabeleireira, e sim estilista de cabelos e abri meu salão aqui porque é onde está a maioria dos meus clientes”. E as instalações do charmoso estabelecimento estão à disposição de quem quiser ter o visual renovado pela especialista na Av. Nossa Senhora de Copacabana, 314, em frente à antiga entrada do Copacabana Palace.

A empresária superou muitos obstáculos principalmente através da arte: “O palco me proporcionou, acima de tudo, o respeito porque pude mostrar que minha posição era de artista profissional”. Ao longo desses anos, quase todos os teatros do bairro, como o da Praia, vendido para a igreja Maranata nos anos 90, na Francisco Sá, o Princesa Isabel, o Brigitte Blair, o da Galeria Alaska, hoje pertencente à igreja Universal, o Glaucio Gil, e o Baden Pawell receberam a diva do ativismo brasileiro GBLT, que atualmente está com o espetáculo “Divinas Divas”, no Rival, todas as últimas quartas até o mês até junho.

Coleção de boas lembranças

Kéramos DecoraçõesPaulo Scherer vive no bairro desde que chegou do Sul com a família. “São 40 anos de Rio. E escolhemos Copacabana para morar porque é exatamente o nosso estilo de vida. Meu irmão gêmeo Pedro (falecido) pretendia abrir um antiquário ou uma galeria de arte em Nova Iorque. Antes de embarcar, ele ficou um mês no Rio de Janeiro e conheceu a Snob Antiguidades, de onde passou a ser sócio. Tempos depois, unimos nossas paixões”.

Seu lugar preferido é o shopping onde fica a Snob Antiguidades, na Rua Siqueira Campos: “Adoro este lugar. Minha loja virou ponto de referência e faço muitos amigos trabalhando”, afirma Paulo que faz da discrição e da amizade a base de seus relacionamentos. No primeiro piso, além da diversidade de produtos e preços, as pessoas fazem a travessia entre as Ruas Siqueira Campos e Figueiredo de Magalhães.

Pça Edmundo Bittencourt

Praça Edmundo Bittencourt

E seguindo pela Figueiredo, a preciosidade fica por conta do Bairro Peixoto, praticamente um sub-bairro da Princesinha do Mar formado ao redor da Praça Edmundo Bittencourt, que possui quadra, parquinho e até fraldário. Lá, entre prédios baixos e charmosos, esconde-se a Travessa Moacyr Deriquem, uma passagem para a Rua Santa Clara, cujas paredes parecem obra de arte (o local faz parte do “Bairro Galeria”, um projeto de incentivo à cultura das ruas).

Para Paulo, Copacabana é um bairro de grandes descobertas. E é verdade! Passeando por lá, sempre é possível dizer ‘não conhecia esse lugar’ como a ‘super residencial’ Rua Barbosa Lima, localizada no final de uma escadaria ao lado da Sala Baden Powell, antigo Cine Ricamar, ou ainda a construção na Rua Xavier da Silveira, 75, de 1938, tombada em nível municipal, que parece perdida em meio aos altos prédios. Ainda na Xavier, esquina com a Rua Barata Ribeiro, está O Caranguejo, um lugar para degustar frutos do mar frescos que podem ser escolhidos na hora, como prato principal, desde 1982.

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Diversidade na arquitetura (a partir da esquerda): construção feita com óleo de baleia e pedras, na rua Barbosa Lima, e início do Corte do Cantagalo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Pelo bairro, alguns estabelecimentos fecharam e deixaram saudades. “Eu me lembro do Sacha’s, da Confeitaria Colombo na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, onde hoje é agência do Banco do Brasil, e principalmente do Traiteurs de France. Dos cinemas tradicionais, só restaram o Roxy (construído em 1938 em estilo art déco e protegido pelo Conselho Municipal de Proteção do Patrimônio Cultural) e o Joia, recém-reformado”
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Pitada especial

De acordo com Scherer, a chegada do metrô proporcionou um tempero melhor para a região, uma incrível mistura de pessoas e de culturas. “Comparo Copacabana com Nova Iorque por ser tão cosmopolita quanto. Americanos, franceses, russos, italianos, misturados com a burguesia carioca e as pessoas simples formam uma caldeira de temperos diferentes e todos se dão muito bem”.

Sobre a orla, Paulo explica que não há quem deixe de se encantar com a vista da Av. Atlântica. “O nascer do sol é diferente todos os dias e quando a Lua está cheia, surge no meio do mar uma estrada de prata. É de enlouquecer”. E após a conclusão do moderno Museu da Imagem e do Som (MIS), onde era a antiga Help, certamente a região vai ficar mais badalada.

Em relação às melhorias, o foco poderia ser a manutenção nas calçadas. “Vejo pessoas que andam com dificuldade tropeçando nos desníveis e buracos. Isso precisava melhorar. Se for de responsabilidade dos condomínios, que estes sejam cobrados para solucionar esses problemas. O bairro é conhecido no mundo inteiro e está se destruindo. O valor do IPTU é alto demais para o pouco retorno. A Princesinha cresceu, virou mulher e precisa de cuidados”.

Bar Bunda de Fora

Bar Bunda de Fora

Para completar, que tal um chope bem gelado e um delicioso petisco de um dos tradicionais botecos e restaurantes da região? Você pode optar pelo delicioso pastel de camarão do Bunda de Fora (Bar Aboim), na Rua Souza Lima, com 58 anos de tradição; ou uma crocante patanisca de bacalhau, no Pavão Azul, na Rua Hilário de Gouveia; ainda pode optar pela diversidade de tapas portugueses (porções de conservas, vendidas a peso) da Adega Pergola, na Rua Siqueira Campos. E se a fome for grande, mesmo de madrugada, o melhor é encarar um sanduíche de filé mignon ou pernil com abacaxi no tradicional Cervantes. Então, bom passeio e bom apetite.

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O Caranguejo

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Um Comentário para “Copacabana: a diversidade mora aqui”

  1. Ávido Marques Filho disse:

    Nasci em Botafogo,mas sempre sonhei morar em Cpacabana,o que era difícil na época devido aos altos preços dos aluguéis.Somente depois de mais de 60 anos e já aposentado,consegui fazê-lo.Adoro a quadra Figueiredo Magalhães/Tonelero. Moro atualmente em Brasília há um ano,mas já estou procurando apto pra comprar em Copacabana.

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