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Lilibeth Cardozo

Santa Maria, rogai por nós

Quando eu era mocinha, estudante de Sociologia, dividia um apartamentinho com uma amiga. Com rosto de pele lisinha, corpo ágil, cheia de dúvidas, sonhos e muito curiosa, não parava quieta. Arranjei meu primeiro emprego. Dormia naquele quase quartinho, num prédio lindo, todo de mármore cor de rosa, que está lá até hoje. 

Eu saía antes das sete da manhã para ir à faculdade. Ao meio dia, depois das aulas, comia um “pão com qualquer coisa” e corria para o trabalho de visitadora social na antiga Febem. Durante a tarde subia e descia morros, favelas, lugares pobres onde moravam crianças que os pais queriam internar. O Estado do Rio ainda era todo junto e eu ia às casinhas pobres do estado inteiro. Ouvia as muito tristes histórias de vida, normalmente de mulheres sozinhas com seus filhos, desejando protegê-los. Eu ainda rezava a “Ave Maria, cheia de graça… Santa Maria, mãe de Deus, rogai por nós”. Estudava noite adentro, muitas vezes tomando coca-cola com café para não dormir. No meu prédio tinha um porteiro que me apelidou de borboleta. Ele dizia que eu “entrava e saía toda hora e vestia roupas muito coloridas, parecendo uma borboleta”.

ilustração-Lilibeth-CardozoNunca gostei de ficar trancada! No apartamentinho só dormia e passava as noites estudando. Tal como uma borboleta, eu vivia flanando pela cidade. Fui conhecendo a pobreza, as desgraças das famílias muito pobres. Vi crianças machucadas, sujas, doentes, com fome. Meninas e meninos que tinham sido estuprados, baleados, com medo, chorando. Mães em prantos, abandonadas. Mulheres que queriam trabalhar e deixavam seus filhos presos em barracos fétidos. E eu era ainda uma quase criança, mocinha estudante tal os jovens que morreram em Santa Maria. Escrevia meus relatórios, quase sempre torcendo para ninguém ser internado naqueles horrores que eram casas de internos da Febem. Vi também jovens, de peles tão lisas quanto a minha. Mocinhas e rapazes tão saltitantes e livres como a borboleta colorida que eu parecia ao porteiro do meu prédio. Naquela época, muitas vezes eu ainda rezava à noite “Santa Maria, mãe de Deus, rogai por nós”. Eu via saídas! Tempos depois me formei, passei a trabalhar pelo Brasil, lembrava aquelas crianças, aquelas casas, aquela pobreza toda. E continuei meio borboleta: não gosto de nada muito fechado; quero voar, mudar de lugar, sair quando tenho vontade. Sempre procuro as portas de saída. Sempre quero voar. Tem que ver aberturas para fora. Passei a conhecer as saídas: para a vida, para a dor, para curas, para a rua! Os jovens de Santa Maria tinham o céu inteiro para voar. Mas lhes fecharam portas: da boate, da alegria, da vida, de sonhos. Fecharam todas aquelas borboletas coloridas, dançando, rindo namorando, amando e sendo amados. Puseram fogo nos casulos das lindas borboletas que enfeitariam seus mundos. Como eu, muitos seriam cientistas, trabalhariam no Brasil, pelo Brasil! Como eu, teriam filhos, voariam de flor em flor, dariam e teriam alegrias. Cuidados pelos pais, cuidariam sendo pais.

Eu parei de chorar pelas dores de cada criança sofrendo que via quando mocinha: precisava ajudá-las! Hoje choro pelas portas trancadas, espaços sem saídas, governos sem rumo. Homens que trancam, cadeados lacrados, chaves perdidas, paredes sem portas, muros, grades, arames, cercas e choros. O meu país, que conheci, onde estudei, me formei, trabalhei, tranca milhares de borboletas, como eu fui, nos cofres de muito dinheiro, descaso, irresponsabilidades. Edifícios onde circulam trabalhadores tais formigas incansáveis, abelhas que se respeitam, pássaros que cantam e borboletas que enfeitam, são aprisionados. Incendeiam, afogam, soterram,intoxicam, derrubam, pisoteiam E os assassinos matam as borboletas do Brasil inteiro porque querem muito dinheiro.
Ave Maria! Santa Maria, abra portas! Rogai por nós, na hora de nossa morte, Amém!

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