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Gisela Gold

Tamanho

Soares era assim porque o avô já foi. Sua mãe sempre foi muito ligada ao pai e o menino tinha o temperamento do velho. Pelo menos assim ela quis acreditar. E acreditou tanto que qualquer espirro do menino, remetia ao falecido.

Menino imaginava o avô enorme de tanto que falavam dele. Os meninos da sala também viravam gigantes; principalmente quando deixavam Soares na reserva do time de futebol. A menina que ele gostava, mas ninguém sabia, parecia que estava lá em cima, tá em cima que não tinha escada que chegasse lá.

ilustra-Gisela-goldAté que um dia, com um sol desses tão enormes que ninguém vê, a tia da escola perguntou se cada um sabia quanto media. Emprestou a fita métrica e todos os alunos começaram a ser medidos. Estava chegando a vez de Soares que sempre foi o primeiro da fila do hino nacional. Já colecionava há cinco anos o apelido de tampinha. Soares pediu para ir ao banheiro. Ficou atrás da porta quando começou a ver um bando de gente conhecida ficar do tamanho da parede toda. Não tinha pra onde escapar. Iam engoli-lo, todos riam dele que chorou até o olho ficar ardido de tão salgado.

Quando chegou em casa, Soares foi para o quarto e deitou no chão. Não queria ver ninguém. Não queria ver. Fechou o olho de novo. Até sentir um cheirinho de colônia de criança. Era Arturzinho, seu irmão pequeno que não sabia ler, escrever, ainda mordia e muito menos desconfiava que o tamanho das coisas se media com metros e centímetros. E justamente por não saber o tamanho, pegou um giz e contornou Soares, que acordou com o susto. Estava certinho desenhado no chão. Quando levantou, Artur ainda fez quatro tracinhos: dois olhos, nariz e boca e colocou um coração enorme por fora envolvendo Soares. Um coração grandão que não cabia em Soares.

Soares chorou e deu um aperto na bochecha de Artur sem fim. Sem fim e sem tamanho. Como o amor.

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Boa de ouvido
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