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Alexandre Brandão - No Osso

Aprenda a terminar uma briga de amor

Casais brigam. Isso não quer dizer que devam chutar o balde, deixar-se levar pelo fígado e/ou pelo coração. A razão serve melhor a esses momentos, mas é difícil aliar-se a ela, apesar de não ser impossível.

Partindo dessa premissa — difícil, mas possível —, selecionei algumas frases ou atitudes que um dos parceiros pode usar para tentar contornar o pior da briga, conduzindo o foco para o problema a ser enfrentado e resolvido.
Antes de sugerir uma lista de frases e gestos, conto uma história. Aconteceu comigo. Eu e minha parceira discutíamos pesado. Não me lembro o motivo, mas era coisa das mais importantes: um atraso de cinco minutos, um comentário feito fora de hora, em mesa de bar compartilhada com amigos. Não sei. E pouco importa. O fato é que, enquanto rolava uma DR (para quem não sabe uma discussão da relação), eu disse: “Eu não perdo tempo. Perdo, amigo”. Pode? Não, não pode nem pôde. Eu e ela caímos na risada, e o problema se resolveu por si só. Esse tipo de solução é obra do acaso (ou da mão de Deus). Não é usual que aconteça, na realidade, é raro, razão pela qual não se pode fiar nessa espécie de solução.
Então, restam-nos as estratégias. ilustra alexandre
A boa intenção, ao contrário do que afirma o senso comum, não leva um dos brigões ao inferno e chega a salvar um relacionamento. Ela pode inclusive vir em forma de uma frase horrível ou sem sentido. Sendo assim, não há por que não dizer, quando o tom tiver ultrapassado o limite superior do razoável, “meu amor, você está mais para presunto do que para mortadela”. Veja que péssima frase, de qualquer ponto de vista que se olhe. Não é literatura. Não é pertinente tratar pessoas como frios. Entretanto, digo por mim, se ouço uma frase dessas, recuo; frente à mortadela ser presunto é um elogio e tanto. Por preconceito, é verdade, haja vista que mortadela é tão bom (ou tão ruim) quanto presunto. Mas mortadela, sabe como é, mais comumente, é mortandela. E, pelo som tão desagradável de mor-tan-de-la, ninguém admite ser comparado a ela.
Imagens valem mais que mil palavras. Outro lugar comum, mas sabedoria muito bem escrita – e nunca desenhada, o que é uma contradição, mas deixa pra lá. Assim, no meio do imbróglio, use e abuse das mãos. Claro, não para fazer aqueles gestos que intencionam mandar o parceiro lá pras bandas do mau cheiro, mas, para desenhar com elas, na altura do peito, um coração, que deve pulsar na direção do amor à beira de um ataque de nervos. Tamanha fofura desarma qualquer espírito bélico. É tiro e queda. Tiro e queda não é, nem deve ser. De fato, é o contrário de tiro e queda, mas espero que vocês tenham me entendido.
Tudo isso soa ridículo. E é. Já dizia Fernando Pessoa (ou um de seus heterônimos), no amor tudo é ridículo, mas, de fato, não amar é que é ridículo. E briga de amor – sim, estou falando só dessas – são apenas um lado do amor. Se nas cartas amorosas usamos e abusamos dos clichês, do derramamento, nada mais justo que façamos o mesmo nas brigas. Fazer coraçõezinhos com as mãos ou chamar o amor de presuntinho é um jeito estranho de acabar com aquele bate-boca improdutivo.
Em síntese (sempre quis acabar uma crônica com esse “em síntese”, pois dá ao texto ares de academia, fica chique mesmo. Vou até repetir a expressão e terminar a crônica).
Em síntese: acaso, frase, gesto – ridículos, mas amorosos – o que importa é fazer da briga apenas um muxoxo do amor. Um tropeço. Um descuido. Uma oportunidade de transformar aquela energia toda em prazer, daqueles que começam com um olhar, um carinho e, depois, seja o que Deus quiser e o diabo comandar.

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Publicado em – Edição 117
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