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Gisela Gold

Para sempre

José é nome que se ouve em qualquer esquina. E foi numa esquina que José ouviu seu nome da boca de uma moça. Uma moça que não se encontra em  qualquer esquina. Ou melhor, até encontra. Uma moça com a cara normal, com uma veste normal, com um tom normal, até com um silêncio normal.
Mas ela olhou para José com olho diferente. Olho de quem olha José e gosta de José e ponto. E pronto. Pronto? José não estava pronto para o amor. O amor aprontou foi na vida dos dois. Esses dois que olhavam tanto para o mundo a procura de alguém que estava lá dentro. Lá dentro deles.

E foi por dentro que a moça tocou José. Um dentro que lá fora já brilhavam os olhos tortos, comovidos, desajeitados de tanto que tinham pra se desmancharem vendo a moça. Uma moça já incomum, com um tom incomum, com uma veste incomum, com um silêncio incomum. Incomum por um motivo banal: ela ouvia. Ela o via.

Ela ganhou nome. Roma. Uma Roma antiga na arte de perceber o outro. Isso a fazia rara. Maiúscula, mas do tamanho dela. Do tamanho dele. Já não eram os mesmos, mas tinham a mesma altura quando se olhavam nos olhos e se reconheciam. Um espelho que dizia: é pra você que eu dou a mão na hora de levantar, andar junto, perder o medo… eu dou a mão é pra você olhar essa pessoa linda que é e não sabe. Mas eu sei. Eu sei.

O amor já não era coisa de cinema. Não era provável. Era possível. Não era viável. Era crível. E não era para rimar, mas tinha barquinho e mar. A vida ganhou molejo, contorno de lápis de cor. Sofrimento que tinha de cor, ficou salteado demais. Desde que experimentou o olhar de Roma, José aprendeu que merecia ter açúcar e afeto. Palavras clichê de bossa nova, como uma linda canção de amor. E de tanto que estava amado, acabou finalmente gostando de si.

Roma era cidade de quem fala com olho, com as mãos, além da língua. Era para ontem, como dizem os ansiosos. É pra hoje, como dizia o relógio da praça. É pra sempre, como dizem aqueles olhos.

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Boa de ouvido
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