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Haron Gamal

A viagem maior

Júlio Ricardo da Rosa aprofunda o duplo na literatura através de disfarce permitido pela internet.

A existência do duplo sempre foi presente em toda a história da literatura. Na poesia, por exemplo, através da tensão entre linguagem figurada e linguagem referencial; na narrativa, sobretudo, através da dialética entre autor e narrador. Tais artifícios não só expandem a possibilidade de leitura de cada texto, como também ampliam suas perspectivas de representação e de criação de realidades.

Sabe-se que autor e narrador são entidades que ocupam instâncias diferentes. Portanto, ao criar um narrador marginal, não se supõe que o autor também viva à margem da sociedade. Quando o autor expande esse duplo ao estabelecer um narrador-autor que cria ainda outro narrador, podemos dizer que foi instituída a narração em abismo. Trata-se, então, de três histórias: a do autor em relação a todo o romance, a história que o narrador nos conta, e a do autor “fictício”, criação do narrador, que também está a nos propor mais uma história. É o que acontece em “O viajante imóvel” (Dublinense, 253 páginas), de Júlio Ricardo da Rosa.

oviajanteimovel280_v2Não é difícil perceber o ardil, na verdade já a partir do segundo capítulo. No primeiro, o romance começa com uma aventura no deserto. Félix Kölderlin presencia uma batalha entre os tuaregues, povo nômade de etnia árabe, que transita pelo norte da África. Já no segundo capítulo, apresenta-se outro narrador, cujo nome é Vitor Assis. Este sim, o viajante imóvel. Daí em diante, quase em capítulos alternados, acompanharemos a trajetória desses dois personagens. O primeiro a aparecer é escritor de livros de viagens radicais, mas (ao menos no início) trata-se de um personagem sobre quem é impossível se fazer publicidade pessoal. Ele nem sequer conhece o seu editor, envia-lhes os textos por correio eletrônico, em meio às suas aventuras em torno do mundo. O segundo, Vitor de Assis, é uma pessoa infeliz, alguém que permanece trancado num apartamento fazendo traduções do alemão para um homem chamado Turco, um tradutor juramentado. Assis vive vigiado e até certo ponto aprisionado pela ex-mulher, como já se pode perceber desde o início do livro. Tal fato o incentiva a tramar um plano espetacular de vingança e de libertação. Ele cria então o escritor-viajante, que lhe permite faturar com o sucesso de suas aventuras transformadas em livros. Se essa situação vai perdurar ou se a ficção será desmascarada, compete ao leitor descobrir.

Uma vez que no mundo das ideias tudo poder ser viável, Júlio Ricardo da Rosa soube aproveitar muito bem como motivo o recurso imprescindível da atualidade, a internet. A rede possibilita, mais do que em qualquer outra época, que em poucos minutos se possa tomar conhecimento sobre qualquer assunto (ainda que de modo superficial). Permite também a qualquer mortal chamar alguma atenção sobre si. Outra possibilidade da internet é incentivar certo namoro com a fraude, principalmente quando há a criação de pessoas fictícias. Até que ponto se pode forjar uma nova identidade e conseguir documentos “oficiais” através de sites pertencentes ao submundo da rede? Quanto se precisa pagar por isso? Qual o risco que se corre? Rosa nos mostra um caminho divertido e perigoso, que pode ser até mesmo verdadeiro.

No universo de Kölderlin, o autor das histórias radicais, quase tudo é possível. O perigo e o risco de morte sempre rondam os personagens. No de Assis, a aparência é de imobilidade, mas no final há um exagero surpreendente, maior do que o do autor das aventuras à beira de vulcões, batalhas, escarpas e ondas gigantes. Como a literatura, no entanto, é feita muitas vezes de situações que extrapolam a realidade, situações estas em que o exagero é necessário, entra-se na fantasia e é possível acreditar no desfecho, que beira o inverossímil.

Além da alternância entre os dois narradores, com trechos quase sempre intercalados, há um longo flashback – necessário para conhecermos a vida pregressa de Vitor –, onde a história se desenvolve por um narrador em terceira pessoa. No capítulo 8, denominado “Identidade Kölderlin”, voltamos ao narrador Vitor Assis, permanecendo assim até o final, o que também acontece nos capítulos intercalados onde há a narração empreendida pelo escritor aventureiro.

Como epígrafe do romance, Rosa cita Ernesto Sabato: “A arte é quase sempre um ato antagônico, e um homem parado pode ter muito mais imaginação do que outro que percorre o planeta.” A citação antecipa a literatura como a viagem maior, tanto mais quando lembramos que muitos dos escritores viajantes não lograram fisicamente ir muito longe, mas suas obras, além de atingirem estâncias inauditas, nos perseguem e nos mantêm presos a essa eterna peregrinação.

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