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GÁVEA – Retratos de um bairro plural

Texto_Paulo Wagner
Fotos_Arthur Moura

Certo dia, procurando um lugar para morar, saí passeando pela cidade e me encantei por um pequeno bairro da Zona Sul, cercado de natureza, com muitas ruas arborizadas e uso diversificado – escritórios, comércio, lazer, cultura, gastronomia e moradia. Que lugar era esse? Gávea. Um lugar charmoso, aprazível e com ar de cidade do interior. Mas isso aconteceu há trinta anos e de lá para cá muita coisa mudou.

Praça Santos Dumont

Praça Santos Dumont

Não que eu esteja numa fase saudosista, não. É comum olharmos para o passado com a sensação que estamos perdendo algo importante. Comparando as épocas, de algum modo o passado nos constrange a pensar que a qualidade de vida no bairro se deteriorou com o passar dos anos. Lembro-me do tempo em que colocava cadeira na calçada e entrava madrugada adentro bebendo e jogando conversa fora com os amigos. Crianças brincavam na rua com total segurança. Barulho, só da natureza.

Conhecia quase todos os vizinhos pelo nome. Recordo que o ritmo frenético que regia a cidade parecia apaziguado na Gávea. Não que o bairro não tinha suas veias pulsando, muito pelo contrário. Já existia, por exemplo, o Baixo Gávea, clássico reduto da boêmia, apenas muito mais controlado. A concentração de estudantes e a grande presença de artistas faziam do lugar um concorrido ponto de encontro, com a marca da informalidade carioca. Era programa certo após as aulas de engenharia da PUC, sem jamais decepcionar, em especial nos quesitos gente interessante e flerte, sempre cheio de novidades e possibilidades.

A concentração de pessoas já causava transtorno para a vizinhança, mas era num nível tolerável. Agora o barulho e a desordem urbana são imensos, com ambulantes e flanelinhas quase em número maior que os frequentadores, deixando no final da noite um enorme rastro de sujeira no chão.

Visão geral da Rua das Acácias

Visão geral da Rua das Acácias

Entrevistei Flávia Lizarralde, que reside na Gávea há pelo menos 25 anos, entre idas e vindas. Conhece bem o bairro. Indagada sobre os motivos que a levaram a escolher a Gávea para morar, e especificamente a bucólica Rua da Acácias, respondeu imediatamente: a tranquilidade do lugar e o impressionante efeito visual do túnel verde gerado pelas árvores plantadas nos dois lados da rua. “Aqui é perto de tudo e não é surpresa para mim que esta rua seja muito procurada por pessoas que querem vir morar na Gávea”. O edifício onde mora é de 1939, sem elevador, fachada bem preservada, um típico prédio do bairro. Ela, porém, tem receio que a harmonia da vizinhança acabe com a venda de uma casa localizada quase na esquina com a rua dos Oitis que, sendo demolida, sirva de saída para o estacionamento do Shopping da Gávea. “Se isso acontecer a minha rua, que é de mão-dupla, e as do entorno virarão o caos porque o fluxo de veículos será muito superior à capacidade delas, gerando constantes engarrafamentos”, diz Flávia.

São preocupantes também os inúmeros relatos da onda de insegurança que se alastra na outrora sossegada Gávea. A Associação de Moradores – Amagávea – cobra maior policiamento e segurança no bairro. Os moradores reclamam estar virando reféns dentro da própria casa, sendo obrigados a comprar cada vez mais equipamentos de segurança, como trancas, arames, câmeras de vigilância e alarmes. “A sensação de medo tomou conta de muitos moradores”, afirma Bruno Belchior, presidente da Amagávea. “A violência urbana é um problema crescente, está espalhada por toda a cidade e aqui não é diferente. Porém há necessidade de uma ação mais efetiva do poder público, que permita ao cidadão se sentir seguro. Cabe ao Estado colocar em prática as políticas públicas de combate à violência. Sem isso, cada um de nós se sente desamparado, à mercê da própria sorte, sem saber o que fazer para garantir a segurança pessoal e da sua família”, conclui Bruno.

Como disse antes, eram outros tempos. O uso e a dinâmica do bairro mudaram bastante com as obras da expansão da Linha 4 do Metrô e seus canteiros de obras. As obras trazem transtornos porque estão localizadas em áreas de concentração residencial e com grande circulação de pessoas. Poluição sonora, ruas interditadas, trepidação dos prédios decorrentes das explosões são apenas alguns problemas vividos diariamente. Somado a isso, um aumento significativo do tráfego de veículos pesados fazendo o bota-fora do material escavado. A situação é provisória, é verdade, mas incomoda muito os moradores.

De uma coisa o “gaveano” pode se orgulhar: há anos o bairro tem o maior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) entre os 126 grupos de bairros da cidade do Rio de Janeiro. O IDH é uma medida resumida do progresso, a longo prazo, em três dimensões: renda, educação e expectativa de vida (saúde). O índice varia entre zero e 1, sendo que em 2013 a Gávea atingiu 0,970.

Mas uma coisa é certa, não posso negar que passa ano, entra ano, e a Gávea continua fascinante, seduzindo com seus encantos pessoas de todas as idades, lugares, raças, religiões e classes sociais. Programações culturais existem aos montes e o difícil é escolher o que mais combina conosco. Também encontramos bares e restaurantes para todos os gostos e bolsos, cheios de charme e singularidade. Entretanto, me pergunto: Isso irá durar até quando? A resposta é clara: até quando os moradores quiserem, até quando puderem estar juntos, brigando pelo bairro, defendendo a legalidade, preservando as áreas verdes, tendo uma maior consciência ambiental, impedindo a especulação imobiliária, participando da solução para resolver os problemas comuns. Eu estou lutando por tudo isso, para que possamos manter a qualidade de vida, sonhando com dias melhores. Quer estar ao meu lado? Venha, participe da Associação de Moradores. Juntos, vamos mais longe. O futuro da Gávea depende do que deixarmos fazer com o bairro hoje!

Amagávea

A Associação de Moradores e Amigos da Gávea – Amagávea – existe desde 1976. É uma das mais antigas associações de bairro em atividade na cidade. Ela trabalha pela manutenção da qualidade de vida dos moradores e pela preservação do patrimônio histórico, cultural e natural. A associação atua como interlocutora da comunidade perante autoridades e órgãos municipais, estaduais e federais, da administração direta ou indireta, bem como entidades de direito privado, responsáveis por serviços e obras na região.

A força de uma associação de moradores se dá através do número de pessoas comprometidas e participantes do movimento. Assim, ao longo dos últimos anos, as diretorias da Amagávea criaram uma representação significativa que se fez ouvir pelos representantes do governo e entidades que administraram nossa cidade, como vemos no histórico das ações realizadas, apesar da pequena participação dos próprios moradores. Entre as conquistas históricas podemos citar a campanha contra a construção de prédios residenciais no terreno ao lado da Escola Americana, no Alto Gávea; o fechamento do Viaduto Graça Couto, tirando cerca de 9 mil veículos por dia que passavam no bairro em direção ao Jardim Botânico, Botafogo e Centro. Uma recente vitória foi a volta da Praça do Ipê, como ficou conhecido o movimento popular gerado após o corte de 17 árvores entre grandes e pequenas, aí incluído um maravilhoso ipê amarelo, uma jabuticabeira e uma mangueira.

Frequentemente a Associação busca junto ao poder público soluções para os problemas do bairro. São ofícios, contatos pessoais em reuniões comunitárias, e-mails, ligações para o número 1746, SMS, matérias jornalísticas, enfim, lança mão de todas as formas de comunicação. Infelizmente as soluções não acontecem na velocidade que se deseja: burocracia operacional, falta de recursos, pouco engajamento da área demandada, ineficiência dos servidores, resistência à sugestão, são as mais correntes. Um exemplo da demora é a faixa de pedestre pintada na rua Marquês de São Vicente em frente a rua Prof. Manuel Ferreira. Levou um ano para ser feita, após insistentes e acalorados pedidos.

Outro exemplo que impressiona pela demora é a recuperação do pavimento da Rua João Borges. Há oito anos (acreditem, é isso mesmo, oito anos) a Amagávea promove contato e reuniões com diversas autoridades. Segundo o prefeito Eduardo Paes, em mensagem eletrônica enviada para a Associação, ele reconhece a necessidade da obra, tanto que já foi licitada, escolhida a empreiteira e marcado o início (para março de 2013, ou seja, ano passado). Entretanto, até agora nada foi feito. Mas a Amagávea não desiste, continua cobrando as ações e as promessas dos políticos. Um dia, quem sabe?

“As demandas dos moradores por serviços públicos são realmente expressivas, os recursos são finitos e somos forçados a priorizar as ações que são mais demandadas pela comunidade. Sempre que um morador procura a Amagávea com um pedido (por vezes nos antecipamos) – claro, se viável – levamos o assunto aos órgãos competentes. A partir daí incluímos o pedido no rol das cobranças, que são acompanhadas periodicamente”, diz o vice-presidente da Associação, René Hasenclever (foto).

Por tudo isso, o trabalho de interação que a Amagávea busca com os poderes públicos se figura importantíssimo para que a comunidade tenha atendidas as suas demandas, mesmo de forma tardia.
Acesse o site www.amagavea.org.br e veja o que você pode fazer pelo bairro.

Um pouco de história

O nome do bairro se refere à monumental Pedra da Gávea. Os primeiros habitantes da região foram os índios tamoios. Ainda no século 16 a pedra seria batizada definitivamente como “Gávea”, pelos portugueses, pois vista do mar parecia com o cesto da gávea (mastro suplementar que se encaixava em um dos mastros de antigas naus a vela). A pedra, na realidade, situa-se no bairro vizinho de São Conrado, mas acabou dando seu nome ao vale voltado para a lagoa Rodrigo de Freitas.

Nos primórdios a Gávea ia do Arpoador à Barra da Tijuca, incluindo Ipanema, Leblon, Gávea, Lagoa, Jardim Botânico, Vidigal e São Conrado. O acesso principal ao bairro era feito pelo Caminho da Boa Vista (atual rua Marquês de São Vicente), que possuía várias chácaras e palacetes. A atual Praça Santos Dumont era chamada de Largo das Três Vendas e tinha esse nome por causa das três mercearias ali existentes. Ali chegavam os bondes de tração animal. Depois, já elétricos, os bondes subiam a rua Marquês de São Vicente até o seu final e de lá retornavam no local chamado de “Rodo”.

Em 1933 foi criada a famosa corrida automobilística do Circuito da Gávea. O percurso iniciava na rua Marquês de São Vicente, passada pela Av. Visconde de Albuquerque, Av. Niemeyer e subia a Estrada da Gávea. Repetia-se esse roteiro vinte e cinco vezes, totalizando 279 quilômetros. Até a década de 50 integrava o calendário internacional das grandes corridas de automóveis. Naquele tempo, os corredores participavam das corridas por amor ao esporte. O Circuito da Gávea acabou em 1954, substituído pelo automobilismo profissional da Fórmula 1. Não existia mais espaço para o romantismo nas corridas das chamadas baratinhas…

No início da década de 1920 surgiram as indústrias, como a fábrica de tecidos São Félix, rebatizada de Cotonifício Gávea, que cerrou as portas em 1980 com o nome de Sudantex. Depois vieram os laboratórios químicos Park-Davis, Moura Brasil e a Merrel do Brasil.

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