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Mobilidade urbana sobre duas rodas

Texto_Juliana Alves
Fotos_Arthur Moura

Muito além do esporte e do lazer, as bicicletas são cada vez mais presentes como meio de transporte. Mas ainda há um longo caminho a percorrer para integrar o veículo na malha urbana de forma eficiente.

Muitas intervenções urbanas recentes na Cidade Maravilhosa foram estimuladas em virtude dos grandes eventos que vamos receber. Uma delas, no papel há anos, é proporcionar mobilidade urbana eficaz para cariocas e turistas, principalmente em relação à integração entre os diferentes modais. Neste cenário, o equipamento que está ganhando espaço como transporte moderno é a velha conhecida bicicleta.

Seguindo exemplos de países como a Holanda, França, Alemanha, Canadá e Japão, o Brasil vem aderindo ao ciclismo como algo além do esporte e do lazer e, atualmente, representado pelo Rio de Janeiro, já está entre os 20 melhores lugares para se pedalar. De acordo com o ranking da Copenhagenize, uma empresa especializada em consultoria de planejamento urbano para transformar grandes cidades em amigas das bicicletas (bicycle friendly cities), o Município está em 12º lugar considerando aspectos como cultura ciclista, programa de aluguel, percepção de segurança e infraestrutura. Porém, há ainda um árduo trabalho para efetivar a estrutura necessária para que a bicicleta deixe de ser um elemento secundário e passe a vigorar entre os principais meios de transporte, contribuindo para a sustentabilidade e a mobilidade inteligente na cidade.

Até agora

As ciclovias têm feito parte dos investimentos do governo até mesmo para assegurar o uso do equipamento como alimentador das redes de transporte de massa. A meta do Rio é construir 450 quilômetros de ciclovias até 2016. Por enquanto, existem cerca de 360 quilômetros, mas muitos trechos não possuem tartarugas para delimita-los ou pintura diferenciada, e ainda são compartilhados com pedestres e carros, com apenas o desenho de uma bicicleta no asfalto.

Ciclismo-Bicicletario-BRT-Pingo-Dagua-7591-copyNo início do mês de março, a Secretaria Municipal de Meio Ambiente implantou seis quilômetros de ciclovia na Zona Oeste entre as estações de Paciência, da Supervia, e Vendas de Varanda, do BRT Transoeste com calçadas, árvores, drenagem, sinalização e 560 bicicletários ao longo do percurso. No BRT ­Transolímpica serão 16 quilômetros de ciclovias alimentadoras das estações, e no Transcarioca, o projeto está previsto para ir da Barra à Penha.

Na Zona Sul, o destaque vai para Copacabana onde 37 ruas estão se preparando para o tráfego seguro de ciclistas, com exceção das vias que possuem o sistema BRS. De acordo com a Associação Transporte Ativo, este é o bairro desta região com maior número de viagens por bicicletas: 60.000 diariamente, sendo praticamente 20% realizadas por entregadores. Haverá também a implantação das chamadas Zonas 30, áreas adotadas em outras cidades do mundo cuja velocidade máxima permitida para veículos é de 30 km/h.

Cenário incompleto

A Zona Norte apresenta um quadro bem diferente. Na Ilha do Governador foram implantados aproximados 18 quilômetros entre ciclovias, ciclofaixas e faixas compartilhadas com a parceria entre a Associação de Ciclistas da Ilha do Governador, a Secretaria Municipal de Meio Ambiente, CET- Rio e a subprefeitura local. A iniciativa foi bem recebida, mas os veículos frequentemente ultrapassam estas áreas colocando em risco quem prefere pedalar.

Recentemente, o designer Rogério Pereira de Melo Marçal, 30, colocou sua bicicleta no carro, foi para a Barra da Tijuca a fim de pedalar até Grumari e comprovou as diferenças existentes: “A maior parte deste percurso tem ciclovia bem estruturada, assim como em toda a Zona Sul. Mas a Zona Norte ainda é muito carente. Durante o tempo em que trabalhei em uma escola no Maracanã, pedalava 14 quilômetros todos os dias e tinha a oportunidade de chegar ao meu trabalho, guardar a bicicleta com segurança, tomar banho e começar as minhas atividades. Hoje não faço isso porque meu emprego é no Centro e não há como utiliza-la por lá. A Avenida Presidente Vargas é perigosa, e na Avenida Rio Branco não há espaço, principalmente porque atualmente o tráfego ali é em mão dupla. Talvez fosse possível contornar pelas ruas internas, mas não daria para voltar em horário de pico. Este transporte é uma alternativa barata, divertida, ajuda a respirar melhor e merece atenção”.

Rogério pedala do Engenho Novo ao Maracanã para treinar com uma equipe de corrida, o que não é tarefa fácil. “Preciso ficar sempre próximo às calçadas, e isso exige atenção para desviar de buracos e bueiros o tempo todo. Os motoristas não dão passagem e ainda jogam o carro em cima quando precisam fazer uma curva mais fechada ou mesmo por maldade. Nestes casos, é preciso parar, colocar a bicicleta em cima da calçada e esperar o carro passar”.

De fato, ainda falta muito. A Avenida Dom Helder Câmara, larga o suficiente para a construção de vias seguras, está dentro do projeto que vai ligar o Parque de Madureira ao Porto Maravilha (revitalização da Zona Portuária): serão quase 18 quilômetros, a mesma distância entre o Leblon e a Praça XV. O percurso inclui passagens pela Quinta da Boa Vista, pelos shoppings Nova América e Norte Shopping, duas estações do Metrô, Del Castilho e Leopoldina, duas do BRT, Madureira da Transcarioca e Francisco Bicalho da Transbrasil, e quatro da Supervia. E os planos pretendem ainda integrar a Avenida Brasil às estações do Metrô na Tijuca.

Segurança à Cidade da Bicicleta

Toda esta infraestrutura tem sido pensada para fazer da bicicleta, um veículo 100% ecológico e saudável, a grande alternativa para integrar os diferentes modais de transporte da cidade. Depois da China e da Índia, o Brasil é o terceiro maior produtor de bicicletas do mundo, porém estamos longe de ocupar o lugar de maiores consumidores devido a motivos como, por exemplo, a alta carga tributária sobre este produto. O quesito segurança também é de responsabilidade do governo, já que assaltos a ciclistas acontecem diariamente, e poucas providências são tomadas para diminuir os índices crescentes deste tipo de violência.

O cozinheiro Jorge Stefson Alves de Aguiar, 55, pedala desde 1978, na época com a Caloi 10, e já perdeu duas bicicletas nas ruas do Rio. “Não temos segurança. O governo atual fez melhorias em algumas regiões, como ao redor do Maracanã onde há viaturas da Polícia Militar constantemente. Mas no Aterro, por exemplo, o índice de roubos continua alto e todos os ciclistas estão com muito medo de serem assaltados. Os ataques acontecem por grupos com mais de três pessoas e soube que existem até treinamentos para esse tipo de delito”.

Além de percorrer grandes distâncias, como da capital fluminense até o município de Cantagalo, próximo a Minas Gerais, ou ainda até São Vicente de Paula, Araruama, viagem sempre realizada para visitar o seu sítio, Jorge adotou a bicicleta como transporte há pelo menos 20 anos e não deixa este hábito por nada. “Minha paixão sempre foi bicicleta. Durante anos, fiz o percurso de ida e volta entre Tijuca e Copacabana para trabalhar, hoje vou do Maracanã até Vila Isabel diariamente. A maior dificuldade é a falta de respeito dos veículos em relação aos ciclistas, que muitas vezes precisam dividir espaço devido à falta de ciclovias. Eu ando com os equipamentos de segurança, bicicleta sinalizada e obedeço às leis de trânsito, mas mesmo assim o convívio entre estes modais é muito difícil, principalmente no horário
de rush”.

O que determina a lei

A Política Nacional de Mobilidade Urbana foi impulsionada pela Lei 12.587, que entrou em vigor no dia 13 de abril de 2012, tornando obrigatória a existência de Planos de Mobilidade Urbana em municípios com mais de 20 mil habitantes sempre priorizando o transporte público e veículos não motorizados. Os novos sistemas BRS e BRT já conseguem atrair usuários, os investimentos na ampliação da rede metroviária também estão enchendo de expectativas motoristas que ficam presos em congestionamentos gigantescos diariamente para tentar chegar à Barra da Tijuca ou sair de lá. Porém os não motorizados parecem estar em segundo plano.

Em muitos lugares, as obras interditam ciclovias importantes sem ao menos aviso prévio. “Várias praças, como a Varnhagen, na Tijuca, estão sem essas exclusivas, e muitos veículos ainda utilizam as liberadas como estacionamento”, explica o securitário Alex Amorim, 40, morador do Méier. “Há dois meses adotei a bicicleta como esporte e não me arrependo. Percorro 30 quilômetros, em média, até o Maracanã às terças e quintas e não é fácil andar no trânsito. Como estou sempre equipado e com a bicicleta bem sinalizada, as pessoas respeitam um pouco mais, porém ainda é muito perigoso. Mesmo assim, se eu tivesse um local onde pudesse deixar a bicicleta com segurança, certamente já teria abandonado o transporte público no dia a dia”.

ciclismo-pedalada-na-montanha-7130-copyDe acordo com o Código Brasileiro de Trânsito, bicicletas, triciclos, handbikes e demais variações são consideradas veículos e têm direito de circular, inclusive, com prioridade sobre os automotores. Em uma ultrapassagem pelas magrelas, os carros são obrigados a manter a distância lateral de um metro e cinquenta centímetros, “mas esta lei não é respeitada e acho que muitos sequer sabem de sua existência”, completa Alex.

 

 


Só faz bem

Em algumas ruas do Rio, como a São Clemente e a Humaitá, é comum ver homens e mulheres nos horários de pico subirem com bicicletas, geralmente as disponibilizadas pelo programa de aluguel Bike Rio, uma parceria entre a Prefeitura e o banco Itaú, após um dia de trabalho. O corpo e a mente agradecem esta atitude, que acaba com a aflição de ficar em um veículo parado ocupado apenas por uma pessoa, em sua maioria, porém ainda é trabalhosa devido à disputa de espaço com os carros e com os pedestres na calçada.

O estudante de engenharia João Marcos Moreira Sampaio, 20, hoje morador do Riachuelo, enfrenta diariamente as dificuldades em passar por caminhos até mesmo sem calçada, e ainda ressalta o lado bom de pedalar. “Quando morava em Ipanema utilizava a bicicleta somente como lazer, aos fins de semana. Depois que mudei de bairro, há mais de dois anos, fiz dela o meu transporte. Eu gastava quase R$ 300,00 com passagens mensalmente e agora economizo, faço o percurso em menos tempo, menos estresse e mais prazer. Minha maior dificuldade é passar pela Radial Oeste (via de alta velocidade) pelo fato de precisar dividir espaço com os carros. Além de ciclovias, falta segurança. Já fui vítima de assalto duas vezes e quando volto para casa por volta das 22h, não encontro ninguém nas ruas. Mesmo assim, acho que as pessoas devem pensar nas vantagens, como corte de gastos, fim das longas esperas por coletivos em pontos de ônibus e independência”.

Envolvimento de todos

Até pouco tempo atrás, as bicicletas eram consideradas excesso de bagagem nas barcas que cruzam nossos mares. A “Barcas SA”, concessionária que administra o transporte marítimo do Rio, permitia somente a sua livre circulação aos domingos e feriados e, mais tarde, aos sábados. Durante a semana, além da própria passagem, o ciclista pagava R$ 4,70 para transportá-la nos horários considerados “de pico”. Atualmente, o tráfego está liberado em quaisquer dias e horários, desde que não seja em catamarãs, caso específico das embarcações Charitas – Praça XV – Charitas.

Além da adaptação dos transportes públicos e das ruas da cidade, as empresas precisam fazer a sua parte oferecendo estrutura para os usuários deste modal, como vestiários e bicicletários seguros e cobertos. Se a mobilização for significativa, não será difícil a adesão até mesmo de condomínios, que podem destinar parte de suas instalações para isso: o espaço ocupado por um carro pode ter até dez bicicletas estacionadas. Mobilidade inteligente, saudável para a população e para o meio ambiente.

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Um Comentário para “Mobilidade urbana sobre duas rodas”

  1. Alessandra Silva disse:

    Excelente materia!!! Adorei!!! Abordagem completa do cotidiano do ciclista na Cidade Maravilhosa… sonho um dia em que as bikes sejam tratadas como iguais no transito brasileiro… sou sua fã, Juliana Alves!!!

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