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Mulheres equilibristas

Texto_Helena Roballo
Fotos_Arthur Moura

“A sensação que eu tenho é que nunca mais vou estar completa em nenhum papel”. A frase dita pela jornalista Carolina
Coutinho quando questionada sobre como era conciliar a vida profissional com a maternidade nos dá a dimensão de o quanto esse assunto é conflituoso para as mulheres.

O dilema de Carolina tem a ver com a necessidade de trabalhar e, ao mesmo tempo, o desejo de ficar mais tempo com os filhos, drama vivido pela maior parte das mães quando a licença maternidade está prestes a acabar. Como voltar a trabalhar e ficar longe por horas de um bebê tão pequeno?foto 1“Podem avaliar o meu discurso como de uma mulher infeliz, mas na verdade é o contrário. Me sinto plena porque pude ser mãe e ainda tenho um trabalho que gosto, mas acho que conciliar as duas coisas me faz uma profissional menos feliz

e uma mãe menos completa, afinal, tive que abdicar de muitas coisas para dar conta de todos esses papéis. É um sentimento dúbio: eu ficaria muito infeliz se não produzisse, mas ao mesmo tempo sinto muita falta de ficar mais tempo com os meus filhos”, explica Carolina.

Tem as que encaram esse momento de conflito como uma chance de mudar. Normalmente são as que podem pedir
demissão do emprego, por exemplo, e buscar alternativa para manter as contas sem que isso signifique ficar muitas horas do dia longe dos filhos. Mas o fato é que a maioria das mães sente necessidade de continuar sua produção intelectual e profissional fora de casa. Sem muita alternativa, o que resta a elas é seguir o modelo brasileiro, que, por lei, impõe que as mulheres retornem ao trabalho dentro de quatro a seis meses, dependendo da empresa em que trabalham. É aí que está o ponto chave do dilema.

“Não é à toa que a Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda o aleitamento exclusivo até seis meses. Canso de ouvir relatos traumáticos de mães sobre a introdução de alimentos sólidos na rotina dos bebês. Como uma mãe pode trabalhar em paz sabendo que seu bebê está sofrendo porque precisa se alimentar precocemente?”, opina Mariana Estellita, mãe de Maria Clara, de seis meses.

pezinhoMariana fala por experiência própria. Antes de retornar ao trabalho, ela conseguiu negociar uma jornada reduzida.
Dos quatro aos seis meses da filha, ficava meio expediente no escritório e contou com a ajuda da mãe para sair para
trabalhar. “Durante esses dois meses ela não comia papinha bem e, a cada choro, eu me questionava o que estava
fazendo trancada em um escritório ao invés de estar ao lado dela, confortando-a e amamentando-a. Chorei
diariamente e, mesmo sendo muito comprometida com meu trabalho, sei que durante esse período não dei o meu
melhor, afinal não estava lá por inteiro. Hoje me pergunto se isso vale a pena para a empresa. De que adianta termos
funcionárias que voltam a trabalhar, mas não estão 100% dedicadas ao emprego?”, questiona.

O casal Alexandra Bicca e Henrique Batista não tem família no Rio. Por isso, ainda grávida, Bicca sabia que teria
que colocar o filho, Miguel, na creche, antes mesmo dele completar seis meses. “É muito cruel pensar que fico nove horas no trabalho, fora as quase duas horas de deslocamento, e me resta pouco tempo para brincar e cuidar do meu
bebê. Entendo perfeitamente as mães que largam tudo para cuidar dos seus filhos pelo menos nos primeiros anos de
vida”, relata Alexandra.

A licença-paternidade, que pela lei é de cinco dias corridos, é outro ponto sempre citado pelas mães. Para ter o
marido por mais tempo em casa, Mariana pediu que ele tirasse férias no trabalho. “A licença de cinco dias corridos para os pais é ultrapassada, é de uma época em que os homens pouco participavam da criação dos filhos, e injusta com  todos”, opina Mariana.

Discussão nas telas

mamae 1O equilíbrio entre a maternidade e a vida profissional é a pauta do documentário Com Licença, produzido por Bia Siqueira e Guilherme Abrunhosa, pais da Bel e da Maria. O filme de 70 minutos, que está em uma campanha de crowdfunding para reunir a verba necessária para conclusão e lançamento, investigou o tema sob diversos pontos de vista, através do olhar de profissionais, mães, pais, empresas e organizações. “O nosso trabalho com o documentário é tentar fazer com que as pessoas reflitam sobre o que é ser mãe, o que é ser pai, o que é trazer um ser humano novo, qual a nossa responsabilidade nisso. E que necessariamente precisaremos mudar as regras do jogo corporativo para que a vida profissional possa refletir a mudança que já está em curso na vida pessoal”, afirma.

Por acreditarem que esse é um projeto coletivo, Bia e Guilherme optaram por arrecadar o montante que falta para finalizar as filmagens via financiamento coletivo. “Quanto mais gente estiver envolvida nessa causa, mais vamos chamar a atenção das empresas e governantes. Precisamos olhar para o modelo de hoje e refletir sobre o futuro que queremos. E esse futuro será tão bom quanto as nossas possibilidades de deixar filhos melhores para o mundo”, completa Bia.

http://www.benfeitoria.com/COMLICENCA

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