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Mauro Giorgio

Um turista nada acidental

Quem vive no Rio, talvez pela pressa ou pelo costume, às vezes perde a conta de toda a beleza à sua volta. Existem momentos em que abrimos os olhos, voltamos a nos admirar, mas logo voltamos aos afazeres e à apatia habitual. Assim percebi que havia muito tempo que eu não me permitia simplesmente passear pela cidade. Resolvi me dar um dia de presente para ser um turista local. Sem pinta de gringo ou de paulista, claro.

Fiz um roteiro completo que tinha como chave-de-ouro uma subida ao Pão de Açúcar, de bondinho, naturalmente.
Cheguei à São Conrado cedinho, quando todo mundo ainda se espreguiçava, mas já havia algumas asas delta e parapentes no ar. Impossível não me lembrar dos tempos em que só existia gramado, carrocinha de milho verde, de churros e o Geneal, com uma garrafinha de suco de laranja ruim de matar. Está bonito, mas quando apareceram os primeiros ônibus de turistas, fui para a praia do Leblon.

Chegando pela Niemeyer e vendo até a Pedra do Arpoador, tive uma sensação de amplidão maior do que em Copacabana, pois os prédios são mais baixos e de quebra uma visão do Cristo Redentor “meio de lado”. A areia já estava enchendo, dando a impressão que o barulho aumenta. No calor, senti sede. Escaldado por todas as reclamações sobre os preços, apelei para uma simples garrafa de água. Mesmo assim, também chiei. E lá vinham de novo os enormes ônibus de turismo. “Deixa os turistas curtirem essa beleza”, pensei com condescendência. Fui em direção a Lagoa Rodrigo de Freitas.

Aquela visão dos morros em volta da Lagoa é algo inacreditável. E lá estava o Cristo Redentor, de outro ângulo. Perto do meio-dia, com o sol de queimar os miolos, tinha uns loucos correndo. Se estivesse com mais alguém, até arriscaria uma volta de pedalinho, mas ri sozinho e fui pensando onde comer. Escolhi ficar na sombra, no Jardim Botânico.
Junto com visitantes de todas as línguas e sotaques, comi um sanduíche e refrigerante e fui passear. Lá para dentro do parque, a temperatura deve ter caído uns três graus. Algumas turmas de colégio e de repente, hordas de turistas a tirar dezenas de fotos. Como caminhava sozinho, acabei me tornando fotógrafo dos grupos, e foram muitas fotos. Muitos “obrrrigadous”. Resolvi que já estava na hora de ir ao Pão de Açúcar e ver meu bairro, a Urca, lá de cima.

Ao chegar, encontrei uma fila imensa. Mesmo um pouco enervado, senti saudade da última visita que fiz ao Pão de Açúcar, com meu irmão, minha mãe e alguns parentes de fora, eu acho.
Quase resignado com a multidão, fiquei lá em cima a admirar a Baía de Guanabara, o Cristo Redentor de frente, os aviões subindo e descendo no Santos Dumont e a Urca.

Que turista não fica abestalhado olhando essa paisagem? Tive saudade de um tempo em que tudo era mais vazio, mais calmo, menos moderno. A beleza não mudou e nada. É justo que toda essa gente também queira aproveitar.
Mas eu já mencionei que era muita gente, muita gente mesmo?

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Publicado em – Edição 117
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Pode vir quente, de novo…
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