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Vamos acabar com o mito

Publieditorial

Siddharta Mukkerjee, no magistral “O Imperador de Todas as Doenças” relata a biografia de um arquiinimigo resiliente,
determinado, ardiloso e cruel, cujo império ainda perdurará por muitos anos. No livro podemos verificar que a luta contra o câncer não é recente.

Mukkerjee nos remete ao antigo Egito, ao papiro do médico Imhotep, no qual ele descreve no ano 2625 a.C. 48 patologias distintas. Diversos tratamentos são citados, porém, ao se referir ao primeiro relato de um câncer de mama,
ele sentencia: “Para este mal não existe tratamento”. E assim nasceu o mito.

Dr. Daniel Tabak é médico oncologista da Clínica São Vicente e membro titular da Academia Nacional de Medicina.

Dr. Daniel Tabak é
médico oncologista
da Clínica São
Vicente e membro
titular da Academia
Nacional de Medicina.

O mito precisa ser vencido. Em 2014, a UICC (Union for International Cancer Control) promoverá diversas ações necessárias para impedir que 84 milhões de indivíduos morram nos próximos 10 anos. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o câncer mata mais que a AIDS, malária e tuberculose juntas! Em 2005, foram 7.6 milhões de indivíduos. Em 2030, somente na América Latina, cerca de 1.7 milhões de casos serão diagnosticados com mais de 1 milhão de vítimas fatais.

Apesar da maior incidência ser hoje nos países desenvolvidos, mais de 70% das mortes relacionadas ao câncer ocorrem em países de renda média ou baixa, onde o acesso aos recursos e ações para a prevenção, diagnóstico e tratamento são restritos. Além disso, o impacto econômico do câncer é enorme: somente em 2008, o gasto estimado em todo o mundo com perdas associadas a mortes prematuras e invalidez quase ultrapassou 1 trilhão de dólares -1.5% do produto interno bruto global. E os custos médicos diretos nem foram incluídos.

A ameaça crescente não é devida apenas ao crescimento e a maior longevidade da população. Cerca de 30% das mortes estão relacionadas a cinco fatores comportamentais que podem ser modificados: obesidade, tabagismo, falta de atividade física, pequena ingestão de frutas e legumes e o álcool.

A campanha deste ano da UICC visa eliminar quatro mitos sobre o câncer. Dois deles merecem atenção especial. O
primeiro: “Não existe nada que eu possa fazer sobre o câncer”. O ano de 2013 nos mostrou como é falsa esta premissa, ao menos no Reino Unido e nos EUA. Em dezembro, foi anunciada uma redução de 20% na mortalidade associada ao câncer, quando comparada a década de 80, atribuída à conscientização, diagnóstico precoce e tratamento.

As estatísticas americanas publicadas no mês passado reportaram uma redução de 1.340.000 mortes nos últimos 20 anos. A revista Science ressaltou os avanços científicos ao escolher a imunoterapia do câncer como o destaque de 2013. A regressão de tumores agressivos como o melanoma e leucemias refratárias constitui um novo ponto de inflexão na luta contra o Imperador.

Ao combater o segundo mito – “eu não tenho direito ao tratamento do câncer”, a UICC pretende eliminar a disparidade
e garantir o tratamento adequado a todos os indivíduos. Sabemos que a guerra contra o câncer não será vencida
com caças supersônicos ou malabarismos contábeis. A Sociedade Americana do Câncer comemorou, no final do ano
passado, a queda de 4 % na incidência anual dos tumores de colon no período de 2008 a 2010. No Brasil, para a mesma
patologia, de 2008 a 2014, verificamos um aumento de 27.000 para 32.000 casos anuais.

Emergência:  2529-4505 Geral: 2529-4422

Emergência: 2529-4505
Geral: 2529-4422

Enquanto um programa de prevenção nem sequer foi implementado, foi decretado o prazo de 60 dias para o início do tratamento após o diagnóstico de qualquer tipo de câncer. Faltou, porém, combinar com as células tumorais o limite máximo de tempo para que o diagnóstico preciso fosse estabelecido.

Além disso, em 2014, a política de segregação na terapia do câncer permanece: enquanto conveniados dos planos de saúde poderão receber drogas orais de alto custo, no Sistema Único de Saúde (SUS), a maioria dos medicamentos da nova geração continuará inacessível. No Brasil, o mito sobrevive.

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