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Mauro Giorgio

Há vida após o verão

O calor vai embora, as noites ficam mais agradáveis, com temperaturas ótimas para garantir um sono pacífico.
As amendoeiras ficam despidas, enquanto os habitantes da cidade consideram a hipótese de substituir o uniforme de camiseta, bermuda e sandália havaiana e vestir, quem sabe, uma calça comprida.

O calendário avisa que o inverno chegou e o carioca começa a viver uma espécie de muda, o lento processo de desapegar do verão e de suas delícias. Não é nada fácil. A cada ano, repete-se a mesma relutância. Enquanto vivem o verão escaldante, os habitantes da cidade não param de fazer comentários sobre os rigores da estação e de sonhar com temperaturas mais amenas. Quando elas finalmente chegam, a alegria é apenas momentânea, seguida por uma espécie de melancolia.

A praia esvazia um pouco, o espaço dos surfistas aumenta. Há menos barracas na areia e, em alguns casos, pode até acontecer uma pequena queda no preço da água de coco. Muda o astral da cidade. Programas como shows ao ar livre, reuniões para ver o pôr do sol, pedaladas ao anoitecer dão lugar a atividades mais internas. Definitivamente, essa não é a do carioca.

Ilustra_Mauro-copyClaro que ainda dá para fazer churrasco na laje, mas ninguém precisa colocar a cerveja no isopor desde as sete da manhã; a partir das onze horas já está bom. Mas a cidade é democrática. É hora daquele pequeno grupo que prefere o clima mais frio esperar por aquela semana glacial em que termômetros ficam entre 17º e 20º no Alto da Boa Vista para mostrar os casacos novos comprados na Argentina. As moças tiram as botas do armário, algumas brancas, pois nem todo mundo vive a mesma vibe. Outros, mais modestos, recorrem às malhas da rua Teresa, em Petrópolis. E os marrentos continuam só com a mão no bolso da calça jeans.

Nessa semana de frio, que nunca sabemos quando vai ser, os supermercados farão aquelas promoções imperdíveis de queijos, vinhos e fondues, e enquanto você faz suas compras oferecerão chocolate quente de graça, reforçando o ambiente alpino.

Realmente, a cidade não comporta estações como o outono e o inverno, mesmo que elas existam só no nome. Fica uma tristeza no ar, aquele desânimo diante de dois dias chuvosos seguidos, um suceder de tosses e espirros nos ônibus e no metrô. O carioca é moldado para o verão e mesmo que reclame todos os dias do calor, garantindo que este ano é o pior da história da humanidade, fica num mau humor profundo quando não dá para ver o sol brilhando.

Mas esse ano com mais turistas por causa da Copa do Mundo, e para quem vem de fora o maior programa será ir à praia, pode ser até que a gente se anime a pisar na areia, mesmo sentindo um pouco de frio. Ainda de bermuda, mas com moletom. Como sempre, pode ser que no meio do inverno pintem dias mais quentes, para delírios dos gringos e nosso. Mas a gente sabe que não deve facilitar, certo? Não dá para ficar na areia até às seis da tarde e correr o risco de pegar sereno!

artigos anteriores de Mauro Giorgio

Publicado em – Edição 117
Um turista nada acidental
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Pode vir quente, de novo…
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