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Lilibeth Cardozo

Não dê a mão à solidão

Os filhos crescem, o trabalho – aquele de todos os dias, oito horas por dia-, já acabou. A morte se anuncia nas muitas perdas, a solidão muitas vezes enche sua casa, o que fazer? Nossas mãos lizinhas e ágeis dedilham as teclas do computador, redes sociais são um saco sem fim. O dinheiro, que deu por 60 anos, já não paga as viagens, os passeios, as comprinhas por puro prazer.

Surge um bode enorme na sua sala, ele corre pela sua cama te convidando para dormir a qualquer hora do dia. As mãos enormes deste bode tapam seus olhos, agarram suas forças, impedem, retraem seus passos. As dores do passado – desde que você era criancinha –, crescem, crescem e crescem. No espelho você vê seu rosto envelhecido, sua juventude gargalhando de suas tristezas O tal bode se chama solidão e é parente próximo da velhice. São irmãos próximos e cúmplices na meta de nos deixar entristecidos. Apertam, e apertam forte, segurando você. Não dê as mãos à solidão!

Pegue o telefone e ouça com alegria a voz de algum amigo; olhe na janela e observe o desenho das montanhas banhadas e o mar. Ali, na sua frente, a cidade pulsa forte, faz barulho: solitários e acompanhados enchem as ruas. Lembre-se dos amigos, dos parentes, das companhias de tantos anos de amizade. Pegue o jornal, busque um bom filme, uma exposição de arte, um show que acontece pertinho de você.

Andando pelas ruas da cidade, mais especificamente pelo mais expressivo bairro da diversidade de nossa cidade, o retrato não cabe em nenhuma câmera. Copacabana é de muitos e muitos cliques! Assim, só olhos atentos conseguem muito mais imagens inusitadas, únicas, espetaculares de tanta gente copacabanando. Imagens que focam o que nos sufoca, moldam nossas mimicas faciais com olhos espantados, sorrisos de entusiasmo ou bocas abertas de perplexidade.

E Copacabana, que nunca engana, é a “cidade dos velhinhos”. Eles caminham amparados em suas pernas ligeiras ou já cansados, apoiados em bengalas que podem ser armas de defesa se necessário, apoiados em devotos membros da família, ou zelosos cuidadores, ou em suas cadeiras de rodas que já tem até as motorizadas. É a vida suspirando nesta tal longevidade. Idosos que saem fazendo de suas retinas câmeras que já donos de arquivos de muitas histórias, vivem Copacabana! Moram, compram, frequentam bares e restaurantes, são conhecidos pelas redondezas, passeiam na mais linda praia da orla, namoram, flertam suas histórias de frios e da acidez dos caminhos da morte que ainda podem ter abraços e aconchegos numa única cama antes do derradeiro adormecer. Os senhores galanteiam as moças bonitas, brincam, ficam felizes ou muito aborrecidos, e vivem! Os velhos de Copacabana não dão mãos à solidão.

Circulo no bairro e é lá que as crônicas cariocas viram livro numa tarde qualquer. Sempre me pergunto: dá pra viver sem leitura do mundo, sem a poesia que enfeita o viver cada dia? E a resposta é esta minha impossibilidade de não saber, como minha poeta preferida, Adélia Prado, dividir com todo mundo a poesia que vejo, sinto cheiro e procuro letras pra escrever meu livro. Toda vez que vejo os anciães em Copacabana minha vida ganha ares de juventude. Penso que já tenho passe livre numa fila especial nos bancos, nas farmácias, nos ônibus, no metrô. Mas quando minhas rugas e meu cansaço fotografarão aqueles velhinhos como da minha turma? Resisto. Mas lembro de que quero é licença para dormir, igualzinho a Adélia que pede também socorro para suas fraquezas, concessão para um rosto de velha mãe cansada, de avó boa.

Copacabana é uma alegria só e cheinho de velhinhos que teimam em não dar mão à solidão. Assim eu me quero: acompanhada das flores, expressão festiva da natureza, minha casinha colorida, mãos dadas com minhas irmãs, meus filhos, meus netos e com amigos que quando sorrio ou choro, estão comigo, me dão a mão, sem nenhum dedinho para solidão! Somos meninas e meninos da longevidade! E com crianças e velhos há que se ter ternura, casinha tranquila, poesia, mais silêncio, menos indignação. É fase de acariciar o coração. Para que pressa? Velhos querem rever memórias, curtir a vida e assistir. Crianças, só brincar e crescer!

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