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Arlanza Crespo - Quem é Quem

“Pra mim, viver aqui é tudo”

Nasci em Santa Teresa, na rua Monte Alegre 314, e o ponto do bonde era na porta da minha casa. Em frente existia a chácara do Dr. Veiga, e foi o leite das suas cabras que salvou a vida da minha irmã. A chácara ainda existe, mas o Veiga virou Viegas.

No Centro Cultural Laurinda Santos Lobo ainda moravam os Pires Ferreira e o meu vizinho era o famoso pintor Leopoldo Gottuzo. Meu tio compôs o Hino a Santa Teresa, gravado na década de 50 pelo Orlando Dias. Em Santa Teresa aprendi a subir em árvore, principalmente nos sapotizeiros carregados que existiam na época. Foi uma infância muito feliz, e por isso que quando encontro alguém que me diz “pra mim, viver aqui é tudo” eu me emociono tanto! E esse alguém é o meu entrevistado Getulio Damado, mineiro de Espera Feliz, três filhos, quatro netos e sete casamentos. “Reclamam que sou muito chato”, ele me disse. “E você é?”, perguntei. “A gente não sabe…”.

Getulio Damado_Foto Fred Pacífico

Getulio Damado_Foto Fred Pacífico

Conheci Getulio na década de 80, num dos primeiros circuitos culturais Portas Abertas do bairro, e sua arte peculiar me chamou a atenção. Contou-me que veio para o bairro com mulher e dois filhos, mas ela o abandonou e ele se viu de repente sozinho com duas crianças para criar. Estabeleceu então uma banca de consertar panelas. Do ponto onde estava via o bondinho passando e com a sensibilidade que sempre o acompanhou passou a reproduzi-lo em sucata. Aos poucos eles começaram a chamar a atenção e todos queriam comprar. Foi aí que Getulio decidiu se dedicar só ao artesanato.

Além dos bondes começou a fazer outros objetos como carros, caminhões, casas e finalmente os famosos bonecos, todos com nomes próprios batizados por ele. A primeira peça que eu comprei dele foi uma boneca alta, magra, charmosa, batizada de Candinha e que quase não coube no meu carro. Levei para morar no meu jardim. Mas a sua obra-prima é o primeiro bonde que fez e que já rejeitou por ela 1.500 reais. Esse ele não vende de jeito nenhum e só mostra em exposição “de peso”.

Getulio passa dias sem vender, mas tem dias que vende sem parar. Durante todos esses anos, e já são mais de 30, já perdeu a conta de quantas obras vendeu. Só na pousada “Casa da Gente” a proprietária tem mais de 400 obras dele. Já expôs na Europa, já foi entrevistado em vários programas de televisão, é chamado para palestras e oficinas, e atualmente está com uma exposição no Centro Cultural da Justiça Federal. Hoje ele é uma referência no cenário cultural do bairro, e conseguiu seu lugar pelo próprio mérito. Contando sempre com a ajuda do filho Vitor, Getulio me disse que tem um sonho: ter um espaço para poder guardar todo o seu material de trabalho.

Na janelinha do seu bonde - Ateliê Chamego Bonzolândia

Na janelinha do seu bonde – Ateliê Chamego Bonzolândia

Getulio se considera um homem esperançoso e feliz, mas só tem uma coisa que o incomoda: a falta do bonde. “Santa Teresa está esquecida, o bonde é o coração do bairro, é cultural, é romantismo, é tudo”. Quando houve o acidente com o descarrilamento que deixou 5 mortos e 57 feridos foi como se ele tivesse perdido um ente querido. E em homenagem aos mortos ele fez um coração que pintou de preto e escreveu em amarelo: “lembrança e justiça”, 27/8/2011.
Para mim, Getulio e sua obra poderiam tranquilamente ser considerados Patrimônio de Santa Teresa.

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