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Oswaldo Miranda

Getúlio(s)

Fui ver o filme. Tony Ramos perfeito. Só trata do atentado da rua Tonelero. Eu estava lá, pois era da Última Hora, jornal criado por Samuel Wainer para servir a Getúlio, com dinheiro do Banco do Brasil, presidente Ricardo Jafet. Lacerda denunciou e partiu para violenta campanha que levou ao atentado com a morte do major Rubens Vaz, da sua entourage, em 5 de agosto de 1954, e em 24, ao suicídio de Getúlio. Moacir Werneck de Sá um dia escreveu que o Banco do Brasil foi ressarcido. Faltou a frase do presidente: “- Não sabia que aqui por baixo havia um mar de lama”. O tenente Gregório, seu serviçal, mais um tal de Climério e sua gang, fizeram o atentado. Tudo é mais do que sabido.

Getúlio morto. Velório. A multidão saia do Palácio do Catete e se estendia pela Glória, Praça Paris, Flamengo… a perder-se de vista, seguindo e aumentando madrugada-manhã a dentro pela Av. Beira-Mar até o Santos Dumont. Eu e dois auxiliares num dos jipes, vendendo Última Hora, com a carta testamento. Todos queriam o jornal. Pagavam sem troco. Outro jipe levava o dinheiro para a Praça Onze e um terceiro ia para o T.Janer, que só fornecia as bobinas de papel com o dinheiro vivo. O jornal não tinha mais crédito. O Schmidt, chefe da rotativa, disse que a tiragem tinha passado de 900.000! O Guiness registraria isso como um recorde mundial?

Passeios pelas ruas de Petrópolis nos verões, aplaudido pelo povo para o qual acenava. Às vezes eu o acompanhava no outro lado da calçada. Um dia a amiga Lalá o abordou pedindo emprego para seu marido, o Silvino Martins, irmão do Frank, que serviu na Secretaria de Comunicação Social num desses governos mais recentes. Outra vez, choveu. Uma família o convidou a ficar na varanda. De repente, um presidente da República em sua casa…

Museu Imperial, a foto do momento em que ele assinava criando-o. Lá estão o autor do projeto, Alcino Sodré, meu professor no Liceu Fluminense, o prefeito Magalhães Bastos, eu, repórter atrás do Getúlio, e outras pessoas da cidade. Creio que sou o único vivo…

Soldado do 1° B.C., dei guarda no Palácio Rio Negro, fosse lá no alto, na guarita do Morro do Cruzeiro, no portão principal. Aí, meu bem ensaiado e vigoroso ‘apresentar armas’, recebia o gentil cumprimento, com breve tirar do chapéu. Getúlio em reverência a mim, não… ao sentinela…

Deposição em 20 de outubro de 1945. Eu dirigia a Tribuna de Petrópolis. Com Carneiro Malta e Oceano Menezes nos telefones, pude juntar os elementos para montar uma primeira página com todas as informações. Saia Getúlio e assumia José Linhares, presidente do STF. Na porta do jornal uma multidão tomando conhecimento do fato, o Amin Salomão vendendo Tribuna adoidado. Pedi ao Fragoso que rodasse mais depressa a máquina plana. Impossível, a bicha não tinha como acelerar o seu toc toc toc… Mas que foi recorde de tiragem, lá isso foi.

Campanha eleitoral de 1950. Getúlio fez a base no Hotel das Paineiras. A reportagem ia todas as manhãs, campanha. Saídas pelos bairros, baixada, cidades vizinhas. A convivência com o tenente Gregório era um saco, cara metido a besta, autoritário, dono do presidente. Eu pela Vanguarda.

Audiência no Palácio do Catete. Sindicato dos Jornalistas apresentando projeto pela casa própria da classe. Eu no grupo para engrossar. O presidente era Luiz Guimarães, e o do IAPC, Henrique de La Rocque. Getúlio aprovou. Jamais teria casa própria. É onde moro desde 1956, no Leblon, hoje o bairro mais valorizado da cidade. Já no nome do meu grande filho, José Luiz.

3 de abril de 1933, Getúlio a caminho do verão em Petrópolis, na serra, altura do 3° viaduto, em meio a vasto temporal, pedra de algumas toneladas rola da montanha, caindo exatamente sobre o carro, matando o ajudante de ordens e fraturando as pernas do presidente e de sua esposa, Dona Darcy. Socorridos, foram levados para o Hospital São José para o devido atendimento médico. O incrível acidente, claro, ganhou intensa repercussão, mas o próprio Getúlio escreveria um bilhete, no hospital, dirimindo as dúvidas sobre atentado, e afirmando ter sido apenas um acidente. Duas ou três vezes estive nos jardins do São José, em meio à intensa movimentação fazendo anotações para o semanário Pequena Ilustração.

No programa Flávio Cavalcanti, fiz um Repórter da História, com o ator Armando Nascimento no personagem Getúlio. No Show sem limite, de J. Silvestre, tudo na TV Tupi, preparei um garoto, o José Pinagé, com apostilas para responder sobre ele. Gratidão. Mais espaço houvesse, mais poderia contar sobre estas minhas passagens pela vida do nosso maior estadista, Getúlio Vargas. Saí do cinema inspirado em contar um pouco mais sobre o que vi no filme. É o que está aqui, nesta modesta relembrança…

artigos anteriores de Oswaldo Miranda

Publicado em – Edição 117
Osmar de Guedes Vaz, gozador contumaz…
Publicado em – Edição 116
Balzac no carnaval
Publicado em – Edição 115
What a wonderful world!
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2 Comentários para “Getúlio(s)”

  1. Marco Coelho disse:

    PQP, que reaça!!! Ainda não conhecia a publicação. Comecei a lê-la por esta matéria totalmente tendensiosa, um lixo. Não voltarei a ler, porque, pelo visto, espelha a opinião da revisa?, jornal? Lamentável!

  2. Alessandra Bettencourt Figueiredo Fraguas disse:

    Boa tarde.
    Sou historiadora e trabalho no projeto de Digitalização do Acervo do Museu Imperial – DAMI. Estou indexando o jornal “Pequena Illustração”, que faz parte do acervo da Biblioteca do Museu, e foi publicado, em Petrópolis, nas décadas de 1930 e 1940.
    Tenho encontrado, neste periódico, vários artigos de autoria do jornalista Oswaldo Miranda, especialmente, sobre a sua atuação na Rádio Difusora de Petrópolis – PRD-3.
    Por conta desta pesquisa, gostaria muito de saber sobre a possibilidade de um contato com o Sr. Oswaldo Miranda.
    Aproveito para informar que este periódico estará disponível na internet, no site do Museu Imperial/DAMI, a partir de meados de 2015.
    Desde já, agradeço.
    Atenciosamente,
    Alessandra Fraguas

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