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Haron Gamal

“Talvez a gente só escreva sobre o que nunca existiu”

Livro de Verônica Stigger discute o caráter sempre em trânsito da cultura brasileira

“Opisanie Swiata” (Cosac Naify, 157 páginas), que em polonês significa descrição do mundo, é quase um livro de viagens. Mas, ao acabar a leitura, percebemos que a volta ao Brasil empreendida pelo protagonista para uma breve visita ao filho, que ele não conhecia, é praticamente definitiva. Se há possibilidade de retorno à Polônia, ela é bastante remota. Começara a Segunda Guerra Mundial. O romance se inicia com uma carta de Natanael ao pai. Dentro do envelope vai também a passagem. O filho vive na Amazônia.
Na carta, Natanael insiste para que o pai venha, pois deseja conhecê-lo. Revela que está doente, que não demore, não sabe se viverá até o dia de seu regresso. A medicina ainda não encontrou os meios de detectar a sua doença. Ainda dita ao pai algumas recomendações que deve observar durante a viagem, e diz que o espera ansiosamente. Daí em diante, podemos perceber as questões que o romance apresenta.

A primeira delas é a saudade. Pois Opaka, o polonês, deixa sua cidade para trás, e o leitor começa a desconfiar de que ele dificilmente a verá de novo. Em segundo: por causa da guerra – e sem saber dela –, ele está prestes a se tornar um emigrante, um dos elementos fundadores da cultura brasileira. Em terceiro, ainda há outros sentimentos, como o amor e uma espécie de nostalgia, mas agora pelo filho que ele não conhece e pela precariedade da saúde dele.

Opisanie Swiata

Opisanie Swiata

Para completar, num dos primeiros momentos da viagem, enquanto aguarda o trem que o levará ao porto, Opaka se depara com um personagem inusitado, homem divertido e atrapalhado, cheio de malas e bugigangas, alguém que vive viajando pelo mundo. Trata-se de Bopp, um brasileiro. Quando descobre que Opaka fala português e toma conhecimento do motivo de sua viagem, abre-se em sorrisos, faz mais um amigo e deseja acompanhá-lo no seu retorno ao Brasil, mais propriamente à Amazônia, onde Bopp diz já ter vivido.

A narrativa, ao abordar esses dois personagens, apresenta tipos que a princípio seriam antagônicos, mas depois se percebe que um é quase o complemento do outro. Enquanto Opaka viaja a partir da Polônia, o brasileiro apresenta-se como alguém em constante trânsito, conhece ambas as Américas, a Ásia, e acaba de chegar de Vladivostok, na Rússia. O polonês deseja sossego para ler o jornal. Bopp fala constantemente e o atrapalha na leitura. Opaka já havia estado no região norte do Brasil nos primeiros anos do século XX. Bopp nessa época mal havia nascido. No final do romance, o leitor perceberá que a influência de Bopp perdurará sobre o seu taciturno e recente amigo polonês.

Tanto na viagem de trem, como na de navio, ocorrem fatos que flertam com o fantástico. Isto talvez revele o objetivo da autora em reiterar que tudo é literatura. Tais momentos se concretizam com a chegada da italiana Priscila e o desaparecimento de sua aranha Maria Antonieta; depois, no navio, com o sádico batismo executado pelo comandante àqueles que ainda não haviam cruzado à linha do Equador; e no momento em que todos a bordo acenam a outro transatlântico, El Durazno, que navega continuamente proporcionando a seus passageiros uma vida fora do mundo, liberada de todos os preceitos e preconceitos morais (é a época da guerra, há de se convir), é para ele que fogem as irmãs andaluzas Olivinhas.

Na chegada à Amazônia, Opaka se vê diante de uma situação pungente. E sempre incentivado pelo amigo, resolve escrever “opisanie swiata”, isto é, a sua descrição do mundo. Na verdade é o brasileiro que revela a ele: “– Tome – disse Bopp, estendendo-lhe um caderninho preto. – É um presente. Serve para fazer anotações. Para que o senhor escreva o que passou. Ajuda a superar. E a não esquecer. A gente escreve para não esquecer. Ou para fingir que não esqueceu. Bopp se calou e, depois de um tempo, acrescentou: – Ou para inventar o que esqueceu. Talvez a gente só escreva sobre o que nunca existiu.”

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