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Uma subidinha até Santa Teresa

Bairro próximo ao Centro ainda mantém clima de interior em meio à cidade grande

É fácil perceber porque o Rio de Janeiro ostenta o título de Cidade Maravilhosa: em todos os cantos existem preciosidades capazes de encantar e mudar a vida de qualquer pessoa. Assim é Santa Teresa, bairro da região central do Rio, que não poderia existir em outro lugar senão aqui.

Texto_Juliana Marques
Fotos_Fred Pacífico

Largo das Neves

Uma simples caminhada por suas ruas de pedras, arborizadas e cercadas de construções do século XIX, transporta o visitante para um Rio antigo, onde passava a aristocracia carioca, que elegera a região como sua. Cercada pelo Catete, Glória, Laranjeiras, Cosme Velho, Alto da Boa Vista, Rio Comprido, Catumbi, Lapa e Bairro de Fátima, possui três grandes favelas, Prazeres, Coroa e Fallet, e tantas outras que se unem às regiões vizinhas.

Seu grande marco é mesmo o velho bondinho, uma verdadeira atração turística com a estrutura de madeira tombada pelo Governo Estadual em 1983, que iniciava o percurso em um terminal no Centro e seguia para Paula Matos e Dois Irmãos, dois destinos no alto do morro. O ramal do bonde de Santa Teresa foi inaugurado em 1896, pela Companhia Ferro-carril de Santa Teresa que, no início da sua operação, tinha quase 40 veículos transportando moradores e turistas durante todos os dias da semana. Em agosto de 2011, um acidente envolvendo o bondinho matou seis pessoas e feriu mais de 40 e, desde então, o serviço foi totalmente interrompido e toda a estrutura passa por obras com previsões pouco animadoras e nada precisas.

Mirantes por todos os lados

Castelo Valentin

Castelo Valentin

Próximo ao Largo dos Guimarães, existe um terminal atual­mente desativado, que antes também era o Museu do Bonde. “O museu saiu desta Estação do Bondinho e foi para o Centro Cultural Laurinda Santos Lobo. Desde então, ninguém pode entrar nessas dependências”, explica Marcos Paulo Souza, 18, auxiliar de logística. Não foi ele quem escolheu o bairro, e sim o contrário: “Minha mãe, uma das cobradoras da antiga CTC, mora nesta casa há mais de 50 anos onde fui criado. Aqui é muito bom, mas acho que ainda falta segurança. O que mais gosto é o ambiente natural e o visual. Muitas construções são tombadas, e não podem ser alteradas nem mesmo para a restauração”, completa.

De fato, as casas, os prédios e até os castelos, junto com o verde esplendoroso de parte da floresta da Tijuca, maior floresta urbana do mundo formada pela Mata Atlântica, formam pinturas que qualquer artista plástico gostaria de assinar. O mais formoso é o Castelo Valentim, de 1879, que hoje recebe hóspedes em seus quartos com uma vista privilegiada da cidade. E como existem pontos de vistas lindos do nosso Rio de Janeiro… Por isso é sempre bom subir com um tempinho extra para “perdê-lo” parando aqui, ali, em qualquer lugar.

Não tão no alto

E não precisa subir muito: o Convento de Santa Teresa, no começo da Ladeira de Santa Teresa, nº52, no final da Escadaria Selarón (sim, também pode ser ótima maneira de iniciar seu passeio), tem uma vista incrível dos prédios do Centro do Rio até o mar além da Ponte Rio-Niterói. A Ermida de Nossa Senhora do Desterro foi erguida por Antônio Gomes do Desterro, em 1629, e em 1750 começaram a construir o Convento, cujo nome foi substituído de Nossa Senhora do Desterro por Santa Teresa, devido ao cumprimento “das regras” desta Santa. Depois surgiu o Convento de Carmelitas Descalças, ocupado inicialmente pelas irmãs Jacinta e Francisca, com freiras que abdicaram do mundo exterior até hoje. A Ermida está aberta ao público de segunda a sexta, das 07h até 17h, e das 7h às 16h aos fins de semana. As missas são realizadas às 07h, de segunda a sábado, e às 8h, aos domingos.

Em poucos minutos de subida, outro “ponto de vista” que merece, quase exige, bastante tempo de visitação é o Centro Cultural Parque das Ruínas (Rua Murtinho Nobre, 169). Ferro, vidro e tijolos: as ruínas, de mais de 70 anos, ganharam novas formas, mas ainda é possível ver e sentir o passado do lugar. Subindo as escadarias internas (não há acessibilidade no local), há um lindo mirante de onde é possível ver desde a Igreja da Penha até a Urca, com toda a Baía de Guanabara a frente, que se completa com os costões das montanhas e o verde da floresta; sem dúvida, a paisagem é de tirar o fôlego. Seu vizinho é o Museu Chácara do Céu, antiga residência do colecionador de artes Castro Maya, que abriga excelente coleção de arte moderna brasileira.

Para todas as idades

“Gosto dos museus e dos mirantes, como a Chácara do Céu e o Parque das Ruínas, paixão da minha netinha”, disse Gonçalo Ferreira da Silva, presidente da Academia Brasileira de Cordel (Rua Leopoldo Fróes, 37), um lugar muito especial tanto pelo acervo quanto pelo maravilhoso casal que nos recebe. Dona Mena, Maria do Livramento, também está sempre lá com o seu violão para tocar, cantar e acalentar nossos corações. “Pitágoras, Sócrates, Platão, todos passaram pela fase de folheto e rapidamente se transformaram em livros, assim como microbiologia, economia, matemática, naturalismo, a lenda do Saci-Pererê em português e em espanhol, e temos até livro que faz parte da grade do Ensino Fundamental”, apresenta Gonçalo.

A Academia Brasileira de Cordel foi fundada em 07 de setembro de 1988 e funciona dentro dos mesmos padrões das Academias de Letras do Brasil e do restante do mundo, com colegiado de 40 acadêmicos, plenárias mensais, atividades próprias, encontros com poetas populares e rodas de cantorias. “Antigamente as plenárias aconteciam na nossa sede; agora são realizadas no prédio do IHGB. É possível perceber que as pessoas não estão totalmente familiarizadas com a literatura de Cordel, que foi o meio de alfabetização de muita gente”, explica o presidente. Os dois moram no bairro há 26 anos: “A vida nos trouxe até Santa Teresa e gostamos muito, mas o transporte público deveria ser melhor”, diz Gonçalo. “Aqui é calmo e tranquilo. Mas sinto falta de uma farmácia grande com preços mais acessíveis”, completa dona Mena.

O transporte é mesmo um problema. Depois da interrupção do serviço do bondinho, só restaram os micro-ônibus, e muitos táxis se opõem a subir o morro alegando correr riscos de rasgar o pneu nos trilhos, fato totalmente desconsiderado por moradores e visitantes que trafegam de carro por ali sem o menor problema. É um dos pontos turísticos dentro da cidade, que muitas vezes se vê isolado diante deste comportamento. Mas lá é mesmo uma parada obrigatória em qualquer época do ano. No Carnaval, o Badalo de Santa Teresa, o folclórico Céu na Terra e as tradicionais freirinhas do Carmelitas, além de outros blocos, agitam tanto aquelas ladeiras, que a organização até já mudou horários de desfiles para evitar as multidões; foi só uma tentativa!

Onde os artistas se reúnem

Na janelinha do seu bonde - Ateliê Chamego Bonzolândia

Na janelinha do seu bonde – Ateliê Chamego Bonzolândia

Como é bom enfeitar-se e subir este charmoso bairro durante os quatro dias de folia, e muitos outros antes e depois também fazem parte da programação. Getúlio Damado, artista plástico, adora a festa e sempre desfila puxando o seu pequeno bondinho cheio de crianças. Sua identificação com o grande marco do bairro é tão intensa, que fez seu ateliê, o Chamego Bonzolândia, em um bonde. “Moro aqui há 29 anos e gosto daqui como um todo, principalmente o bonde. Acho que estão nos matando do coração. Temos problemas como em qualquer lugar do Rio de Janeiro. Mesmo assim, o lugar é muito bom, tranquilo e bem localizado”, afirma Getúlio. As melhorias no transporte e a necessidade de comércios variados também foram suas sugestões de mudança em Santa. No mais, tudo ali é pura inspiração para o seu trabalho, já divulgado em mais de 150 exposições pelos museus, universidades e centros culturais da cidade.

Carlos Antunes

Carlos Antunes

Santa Teresa exporta mesmo muita cultura e arte, e também as apresenta para brasileiros e estrangeiros de uma maneira bem especial, como no Arte de Portas Abertas, um evento realizado geralmente entre os meses de agosto e setembro organizado pela Associação dos Artistas Visuais de Santa Teresa, Chave Mestra. “São cerca de 60 pontos entre residências, que se transformam em ateliês, e museus e centros culturais como Museu Casa de Benjamin Constant, Laurinda Santos Lobo e Parque das Ruínas, aqui na região, e o Centro de Artes Calouste Gulbenkian, na Praça XI”, explica Carlos Antunes, artista plástico. Formado pela Belas Artes da UFRJ, Carlos guarda um incrível acervo produzido com objetos coletados nas ruas do Rio, como a instalação Fundo do Mar, composta por animais marinhos construídos com sucatas automotivas.

Mavi

Sua trajetória lá em cima começou há 20 anos, e sente-se bastante atraído pela tranquilidade das ruas, a arquitetura antiga e o ambiente arborizado. Porém, o pouco patrulhamento da polícia e a lentidão das obras do bonde também o incomodam: “Isso mostra a falta de cuidados com o nosso patrimônio”, desabafa. Pontualmente, isso também entristece Maria Vitoria, a Mavi da La Vereda, uma linda loja com grande variedade de artesanato em perfeita comunhão com o lugar. “Já conhecia o Brasil e muitas pessoas deste bairro. Decidi deixar a Argentina, junto com meu filho ainda pequeno, em 1985 e, desde então, estou em Santa Teresa. A tranquilidade, o espírito acolhedor, o clima de “cidade do interior”, a paz, tudo me atrai”. E quando perguntada sobre o que mudaria, se pudesse fazê-lo: “O mar. Acho que se o mar fosse um pouco mais próximo, seria perfeito”, brinca Mavi.

Comendo bem em Santa Teresa

comendo-bem-listoE tem muito além de cultura, arte, cinema e cursos de fotografia, música e pintura oferecidos nos centros culturais da região. Esse bairro carioca oferece um excelente polo gastronômico, que atende paladares da culinária internacional e de especialidades brasileiras. A pitadinha do tempero nordestino, por exemplo, está no tradicional Sobrenatural, um restaurante cheio de delícias do fundo do mar, como a moqueca de peixe ou o delicioso pastel de camarão, e peça a pimenta para acompanhar o seu pedido.

No charmoso Cafecito, sanduíches, porções, doces e sobremesas, como brownies com geleia artesanal, sorvete ou mesmo o simples, com castanha, podem acompanhar um verdadeiro café expresso tirado por baristas profissionais. Em Santa também tem comida japonesa: no Sansushi, além das sugestões à la carte, a casa oferece um farto rodízio em um ambiente bem agradável. E que tal provar as delícias vindas do fogão a lenha do Rústico em meio a tanta beleza natural propícia também para renovar a energia? Dá até para matar a saudade do sabor daquela pizza feita como antigamente.

A famosa feijoada do Bar do Mineiro merece todos os aplausos que recebe, e os minipastéis de feijão, marca registrada da casa, combinam com as diversas opções de cervejas, sempre geladas. Em 1919, era uma mercearia; hoje, o Armazém São Thiago, Bar do Gomez para os íntimos. Em 2003, o local foi restaurado mantendo intacto o estilo antigo, ideal para conferir os deliciosos bolinhos de abóbora com carne seca e mais de 160 tipos de cachaça, além do chope muito bem tirado. Frikadellen (bolinho de carne frito), goulash com spätzle (ragu de carne ao molho de páprica), kassler (carré defumado) e muitas outras maravilhas da Alemanha estão no Mike’sHaus, o verdadeiro alemão da região. E o Esquina de Santa, excelente ponto de conveniência, ainda tem pizzas, calzones, sanduíches e uma carta de vinhos especial. Tudo isso é só um pouco do que Santa Teresa tem para você. Faça sua “escala” gastronômica e bom apetite.

 

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