Reforço Legal e Institucional é Necessário para Combater o Racismo no Futebol, Afirmam Especialistas
Em meio a um contexto de crescente preocupação com o racismo no futebol, especialistas ouvidos pela Jovem Pan defendem a necessidade de um rigor jurídico mais contundente e de punições institucionais para coibir a discriminação nos estádios. O tema ganhou destaque após o atacante Vinicius Júnior, do Real Madrid, ter sido alvo de ataques racistas durante uma partida em 2023.
O combate ao racismo no futebol brasileiro tem apresentado oscilações nos últimos dois anos, com períodos de queda e novas altas nos registros de incidentes. Um relatório recente revelou que, em 2024, os casos de racismo no Brasil diminuíram 19,85%, totalizando 109 ocorrências, em comparação a 136 em 2023. Contudo, dados preliminares de 2025 indicam um aumento, com 120 casos já registrados. Marcelo Carvalho, diretor do Observatório da Discriminação Racial no Futebol, ressalta que a redução anterior pode ter sido apenas temporária, sem um impacto duradouro das ações implementadas.
São Paulo lidera os registros de racismo, com 23 casos, seguido por Minas Gerais e Rio Grande do Sul. No cenário internacional, Vinicius Júnior se destaca como o jogador brasileiro mais atacado, com 14 dos 18 casos de racismo registrados contra atletas do Brasil em competições internacionais direcionados a ele. A condenação de torcedores do Valencia a oito meses de prisão por insultos racistas marca um avanço na Justiça espanhola, que começa a punir severamente tais crimes.
Martha Di Bella Rabelo, do Bahia, enfatiza que a atitude de jogadores influentes como Vinicius Júnior é crucial para moldar a conduta de jovens atletas. O Bahia tem implementado ações de conscientização nas categorias de base, promovendo discussões sobre racismo e resistência.
Para que essas iniciativas educativas sejam eficazes, especialistas destacam a importância de um sistema judicial robusto. A comparação entre o Brasil e a Europa revela diferenças significativas nas abordagens legais. Enquanto a legislação brasileira prevê penas severas para crimes de racismo, a aplicação prática na Europa, embora mais uniforme, ainda enfrenta desafios.
No Brasil, a legislação antirracista é considerada rigorosa, com penas de reclusão de 2 a 5 anos e sanções administrativas pela CBF. No entanto, a efetividade das punições é questionada, e a necessidade de responsabilização institucional é vista como um caminho para mudar a cultura nos estádios.
As principais entidades do futebol têm se mobilizado para intensificar o combate ao racismo. O protocolo de repressão da FIFA, inspirado por diretrizes da CBF, reflete essa mudança de postura. Mauricio Stegemann, especialista em criminologia, destaca que o Brasil se destaca na América Latina pela gravidade com que trata o racismo, apesar das resistências de outras federações.
O novo código disciplinar da FIFA estabelece diretrizes claras para árbitros, enquanto a UEFA também endureceu suas políticas. Especialistas sugerem que, além de aumentar as penas, é necessário promover uma mudança de mentalidade entre torcedores e clubes, para que a responsabilidade se estenda além do indivíduo.
Enquanto a Conmebol enfrenta dificuldades para implementar mudanças, clubes brasileiros, como Corinthians, Palmeiras e Santos, têm promovido campanhas educativas contra o racismo. A luta contra a discriminação continua, com a expectativa de que a pressão por mudanças legislativas e culturais resulte em um futebol mais inclusivo e respeitoso.



